Ilha da perdio
Island of the Dawn
Penny Jordan




      L estava Chloe, numa pequena ilha grega, prisioneira de seu prprio marido, Leon Stephanides! Aps dois anos de separao, ele a atraiu para essa armadilha
e prendeu-a: ela no tinha como escapar. Mas o que queria Leon? Reatar o casamento? No. Ele queria um filho de Chloe, um herdeiro de sua imensa fortuna. E iria
conseguir nem que fosse  fora!
      Presa  sensualidade que emanava daquele homem, Chloe sentiu renascer a antiga paixo... Ela nunca esqueceu Leon e, de repente, teve a esperana de que tudo
poderia recomear entre eles. Mas Leon mantinha uma estranha relao com Marisa, a moa que odiava Chloe e que arruinou seu casamento...

Disponibilizao do livro: Valeria O.
Digitalizao: Joyce
Reviso: Edna Fiquer


      Ilha da perdio
      Ttulo original: "Island of the Dawn"
      Copyright: Penny Jordan
      1983



      CAPTULO I

C
hloe, com uma expresso de desagrado estampada em seu rosto, reconheceu que, mais cedo ou mais tarde, teria de regressar ao hotel e encarar Derek. Naquela hora to
matutina tinha a praia inteira para ela, mas em breve chegariam os demais veranistas. Ela e Derek haviam escolhido aquela ilha de propsito, devido  sua pequena
dimenso. L encontrariam tempo e tranqilidade para aprofundar seu relacionamento, conforme ele dissera, mas naquele momento Chloe no se dera conta de que os planos
de Derek implicavam no fato de que ela deveria compartilhar sua cama. Claro que no era nenhuma ingnua; a amizade deles poderia permanecer para sempre em um nvel
platnico, mas no havia fornecido a Derek a menor indicao que, pelo fato de vir passar frias com ele, desejava que se tornassem amantes. Chloe e Derek trabalhavam
juntos havia um ano e meio e o que a atraiu foi a confiana que ele parecia inspirar e a ausncia de qualquer insinuao ertica nos dilogos que eles mantinham.
A amizade deles se havia desenvolvido lentamente e Chloe no teve receios ou dvidas interiores quando Derek sugeriu que passassem juntos as frias de vero. Agora
reconhecia que havia cometido um erro. Ficou, de fato, um pouco preocupada quando ele sugeriu a Grcia, mas dominou o medo, dizendo a si mesma que no poderia continuar
recusando uma viagem quele pas to belo, devido a algo que ficara sepultado para sempre no passado.
      Chloe ergueu a cabea, sem ter conscincia do quanto estava atraente com seu short branco e curto e a camiseta de algodo. Sua pele j estava bastante bronzeada
e valorizava os cabelos muito louros, que lhe desciam abaixo dos ombros. Afastou os cabelos dos olhos, num gesto simples e ao mesmo tempo gracioso. Costumava prender
os cabelos, quando ia trabalhar. Talvez fosse ela a culpada pelo comportamento de Derek... Afinal de contas, a Bblia no falava a respeito da perigosa seduo que
cabelos soltos podem exercer? Isso era apenas mais um exemplo da capacidade que os homens tm de culpar as mulheres por seus erros!
      Uma ou duas pessoas pararam para cumpriment-la, enquanto ela voltava sem pressa para o hotel. Apesar de ela e Derek terem chegado na vspera, o porte gracioso
de Chloe e seus traos to atraentes faziam com que ela fosse instantaneamente reconhecida por todos. Era algo a que j estava plenamente acostumada, desde os tempos
em que trabalhara para um conhecido costureiro de Paris. No se iludia, entretanto, achando que monsieur Ren a empregaria agora... Era bem verdade que suas pernas
e cintura continuavam to esguias como sempre, mas a maturidade tornara os seios e as cadeiras mais cheios.
      No hotel os grandes ventiladores pendurados no teto evocavam filmes da dcada de 1930. Era um dos mais luxuosos em que Chloe se hospedara at ento. Fora Derek
quem o escolhera. Quanto a ela, teria preferido algo bem mais simples, mesmo assim no protestou, concordando que a privacidade tinha um preo e era certamente o
que a ilha de Thos oferecia. O hotel era o nico daquela pequenina ilha do mar Egeu. A arquitetura era um primor e continha tudo o que um veranista de bom gosto
poderia desejar. No era de admirar que se tornasse cada vez mais conhecido e procurado.
      Chloe ficou sem saber se telefonaria a Derek de seu prprio quarto ou se iria diretamente ao quarto dele, a fim de verificar se j estava acordado. Era uma
pessoa inclinada a dizer o que pensava e a agir de acordo com isso e esperava que os outros tivessem o mesmo comportamento. Em mais de uma ocasio descobriu que
sua posio era completamente equivocada. Devia ter deixado bem claro para Derek, antes de viajarem, que aquelas frias poderiam aprofundar a amizade existente entre
eles e lev-los a se conhecerem melhor, mas no significavam um convite para que ele partilhasse sua cama.
      A noite anterior trouxera para ela mais de uma revelao. Derek, por exemplo, havia ficado emburrado, quando ela declarou que no se tornariam amantes.
      - Voc est agindo como se fosse uma virgem! - ele observou, furioso.
       At parecia que todos os homens a quem conhecia se achavam no direito de dormir com ela, e quando bem entendessem! O jovem grego que trabalhava na recepo
do hotel a encarava com indisfarada admirao. Seus cabelos eram louros como espigas de trigo, e os olhos cor de ametista, assemelhando-se ao mar, um pouco antes
do pr-do-sol. Chloe fitou-o e reparou no modo como ele olhava para seus seios, antes que virasse rapidamente a cabea noutra direo. Naquele momento chegou a amaldioar
Derek!
      Decidiu telefonar para ele da recepo. No se sentia nem um pouco disposta a ouvir seus queixumes e ele certamente a acusaria de estar sendo uma criatura
difcil, que desejava se valorizar ao mximo, antes de conceder o que ele queria.
      Reconheceu, embora um pouco tarde, que deveria ter prestado mais ateno aos conselhos de Hilary, a garota com quem dividia um apartamento. Sua amiga havia
insinuado que a sugesto de Derek continha outras implicaes, mas Chloe ignorou seus comentrios. Agora admitia que no queria de modo algum acreditar nela. Mais
do que nunca, desejava e precisava daquelas frias. Trabalhava no setor de relaes pblicas na firma onde Derek era contador, e tinha certa relutncia em viajar
sozinha. Amargas experincias lhe haviam revelado que uma mulher desacompanhada era alvo de muitos ataques por parte dos homens, ou pelo menos daquele tipo de homem
que se recusava a acreditar que uma mulher viajava sozinha exclusivamente pela necessidade que sentia de no ter absolutamente ningum a seu lado. A verdade  que
havia concordado em viajar com Derek porque ele representava proteo. Ignorou o comentrio de Hilary, quando ela sugeriu que Derek talvez tivesse idias muito prprias...
Ela enfatizou que eles no passavam de bons amigos e ignorou as risadas irnicas da amiga. Se Hilary no estivesse to ocupada, planejando todos os detalhes de seu
casamento, elas poderiam ter viajado juntas. Chloe, aos vinte e trs anos, comeava a descobrir que a maioria de suas amigas no eram mais solteiras, ao passo que
ela...
      Seus dedos tremiam, enquanto discava o nmero do telefone de Derek. Meu Deus, o que estava acontecendo com ela? No devia pensar mais naquilo. Havia decidido
ignorar o passado, caso desejasse manter a sanidade e a paz de esprito.
      O telefone de Derek no respondeu. Chloe desligou, intrigada. Quem sabe ele j tinha descido para o caf da manh? Haviam chegado na vspera, aps tomarem
um pequeno navio no porto do Pireu, e Derek sugeriu que fossem dormir cedo. Foi nesse momento que nasceu a discusso entre eles.
      - A senhora est preocupada? Aconteceu alguma coisa? - indagou o jovem grego, solcito.
      Ele era muito bonito, como s os jovens gregos costumam ser. Era baixo, esguio, tinha olhos negros e grandes, alm de dentes muito alvos, que contrastavam
com a pele morena.
      - Parece que o sr. Simpson no est no quarto. Deve ter ido tomar o caf, sem esperar por mim. Irei verificar.
      Para sua grande surpresa, o rapaz acenou negativamente com a cabea.
      - O senhor partiu - declarou, e Chloe ficou atnita. - Foi embora agora cedo. Aqui est a chave dele.
      Mesmo diante daquela evidncia, Chloe tinha certeza de que o rapaz havia cometido um engano. Derek provavelmente tinha ido dar um passeio, como ela o fizera.
      - No  possvel que ele tenha partido! Chegamos ontem. Quem sabe voc no compreendeu direito...
      - De modo algum - insistiu o rapaz com teimosia. - Ele acordou cedo e pediu de volta os documentos que guardvamos em um cofre. Em seguida perguntou a que
horas partia o navio que vai para o Pireu. Eu o informei e ele ordenou que fossem buscar as malas em seu quarto.
      Chloe sentiu um frio na boca do estmago. Quer dizer, ento, que Derek havia tomado aquela atitude to extremada por causa de uma simples discusso? Ele no
lhe parecia o tipo de pessoa capaz de semelhante comportamento. Ou seria? Afinal, ela o conhecia to bem assim? Era um homem que esperava que uma garota dormisse
com ele simplesmente porque passavam as frias juntos. Ao receber uma recusa, passou o resto da noite amuado... Mesmo assim, era inconcebvel que tivesse interrompido
as prprias frias!
      - Pare de entrar em pnico - disse Chloe para si mesma. Deveria haver uma explicao para aquilo tudo. Derek no podia simplesmente desaparecer. Para incio
de conversa, o passaporte dela estava entre os documentos de Derek, bem como seus cheques de viagem. Ela comeou a tremer, ao se dar conta das conseqncias da possvel
atitude de Derek. O jovem grego, alarmado diante de sua palidez e de seu ar de aflio, foi at o escritrio e, ao voltar, estava acompanhado por um gordo senhor
de meia-idade.
      - Senhora, sou o gerente. Stephanos disse-me que a senhora est preocupada pelo fato do seu amigo ter partido...
      - Quer dizer que ele foi embora mesmo? - perguntou Chloe, mal percebendo que estava sendo conduzida para uma pequena sala bem mobiliada.
      - Lamento inform-la, mas creio que ele se foi - disse o gerente, encarando-a com curiosidade. - Por favor, sente-se. Quer beber algo? O sol aqui da ilha costuma
causar efeitos negativos sobre quem no est acostumado com ele. J tomou o caf da manh?
      - Mas ele no deixou nada para mim? Um embrulho, um bilhete? - perguntou Chloe, mesmo sem esperar uma resposta afirmativa. Um sexto sentido dizia-lhe que Derek,
movido por aquela amargura e despeito que o levaram a partir, tinha carregado consigo seu passaporte e os cheques de viagem.
      - Com licena. Vou verificar.
      Assim que o gerente voltou, Chloe percebeu que Derek no havia deixado absolutamente nada para ela, a julgar pela expresso desolada do homem. O absurdo da
situao revelou-se com toda sua intensidade. Estava sem dinheiro e, o que era mais importante, sem passaporte. Oh, por que havia concordado com a sugesto de Derek,
colocando suas coisas no mesmo envelope a ser guardado no cofre do hotel?
      Contemplou suas mos pousadas uma sobre a outra. Era um gesto de defesa que passara a adotar naqueles meses amargos, quando a dor que invadia seu corao era
to sensvel quanto a pele tenra onde antes estivera seu anel de noivado. Era um crculo de ouro ligando dois coraes e dois corpos. Pelo menos assim pensava, entregue
ao romantismo, no dia em que o anel foi enfiado em seu dedo. Deveria ter aprendido uma lio naquele momento. No valia a pena confiar em homem algum. Agora, sua
prpria estupidez lhe havia estendido uma armadilha. L estava ela, presa em uma ilhota grega, com umas dez libras na bolsa e sem passaporte. O que fazer, em semelhantes
circunstncias? Pensou vagamente em entrar em contato com o consulado britnico, mas ps imediatamente a idia de lado. Um lugar to minsculo como Thos, que nem
sequer tinha uma agncia de turismo, dificilmente possuiria algo to importante quanto um consulado. O que fazer, ento?
      A atitude mais sensata seria expor a situao ao gerente, o que ela fez, sem revelar inteiramente as razes para a sbita partida de Derek com seu passaporte
e os cheques de viagem. Ele, entretanto, lanou-lhe um breve olhar malicioso, que revelava ter pleno conhecimento de que algo muito mais srio havia se passado entre
os dois.
      - Ele no era seu noivo? - indagou, com muita diplomacia, depois que ela terminou a narrativa.
      - No, era apenas um amigo - retrucou Chloe, com certa aspereza. - E pelo visto, que mau amigo!
      - Um mau amigo  mais perigoso do que mil inimigos!  perfeitamente possvel a senhorita deixar a ilha sem o passaporte, mas as autoridades de Atenas no lhe
daro permisso para deixar o pas. Falarei com a matriz do hotel, em Atenas, para ver o que deve ser feito, e nesse meio tempo sugiro que a senhorita preencha este
formulrio, o qual dever ser apresentado s autoridades.
      O formulrio era muito detalhado e a Chloe pareceu excessivo. Sabia, porm, que os gregos eram muito sensveis a qualquer tipo de crtica e guardou seus comentrios
para si. Quando chegou ao item "Estado civil" hesitou um instante e escreveu "Separada".
      O gerente sugeriu que ela tomasse o caf da manh, mas Chloe no sentia o menor apetite. Em vez disso, voltou para a praia, evitando os banhistas que comeavam
a chegar.
      Somente quando chegou  extremidade da baa, a uma boa distncia do hotel, ela parou e sentou-se, contemplando o mar. Recordaes que a perseguiam durante
dois anos subitamente ultrapassaram as barreiras que ela havia erguido em torno de si, enchendo-a de dor e angstia. Reconheceu que jamais deveria ter retornado
 Grcia. Era um pas que a estimulava em excesso. Claro que a ilha de Thos no podia comparar-se  de Rodes e Derek no era Leon. No entanto, quando ele tentara
beij-la na noite anterior, as lembranas voltaram, sobretudo aquelas referentes  sua ltima briga com Leon, quando ele praticamente tentou violent-la, acusando-a
em seguida... Chloe estremeceu, a despeito do calor do sol.
      Tinha apenas vinte anos quando conheceu Leon Stephanides e era muito ingnua. Apesar de trabalhar havia trs anos em Paris como modelo, levara uma vida quase
to retirada quanto a de uma novia em um convento. Vivia com uma famlia conhecida de seu patro, que a vigiava com o mesmo zelo que teriam por sua prpria filha.
Aps desfilar e posar durante quase dez horas, o dia todo,  noite ela no tinha disposio para mais nada, a no ser tirar os sapatos e cair na cama. Isso at Leon
surgir em sua vida... Desde ento tudo se havia modificado. Chloe reagiu a ele como uma plantinha tenra que desabrocha sob os raios do sol. Agora se arrependia por
ter tornado tudo to fcil para Leon.
      Ficou louca de alegria quando ele a pediu em casamento. Seus pais vieram a Paris para a cerimnia, que foi imponente, pois Leon era o herdeiro de uma grande
fortuna, visto que sua famlia tinha uma frota de navios. Na ocasio, a me de Chloe sugeriu que talvez ela estivesse se precipitando, mas ela recusou-se a ouvi-la.
Amava Leon e era amada por ele. Quo tola havia sido! Por que no havia feito uma pausa para pensar? Por que no estranhou o fato de Leon, um grego bonito e milionrio,
procurar uma esposa que no fosse de sua nacionalidade?
      A resposta  que o amor a deixara completamente iludida. Leon, aos trinta anos, era um homem mundano e experiente, e o fato de am-la pareceu a Chloe um milagre
to grande que ela no questionou absolutamente nada e ningum, sobretudo quele homem quase divino, cujos lbios sensuais submetiam os dela e cujos dedos hbeis,
ao lhe acariciar o peito, despertavam-lhe tamanhas emoes que ela quase chegava a ficar obcecada. Ela, que jamais conhecera a paixo, subitamente tornara-se sua
prisioneira.
      A lua-de-mel tinha sido tudo aquilo com que Chloe sempre sonhara e mais alguma coisa. Leon a transportara s alturas, ensinando seu corpo inexperiente a descobrir
as sutilezas da sensualidade. Nem sequer por uma vez, durante o ms que passaram na Riviera, ela duvidou do amor daquele homem. No questionou o fato de que, como
esposa de Leon, ocupava o papel mais importante em sua vida. Que preo duro havia pago por aquelas iluses!
      - Senhorita!
      Aquele mergulho no passado foi interrompido pela voz solcita de um dos garons, que viera  sua procura.
      - Queira, por gentileza, voltar para o hotel, pois o gerente deseja lhe falar.
      Chloe descruzou as pernas e levantou-se. Apesar de seus traos no possurem a regularidade de uma beleza clssica, a graciosidade de seu corpo, combinada
com o azul profundo de seus olhos e o dourado de seus cabelos faziam com que as pessoas a notassem, sobretudo na Grcia, onde sua ctis alva provocava olhares de
admirao da parte dos homens gregos.
      - Voc  uma ninfa do mar...
      Tal era a descrio que Leon fizera dela um dia. Ela, como uma perfeita tola, havia acreditado naquela lisonja que, afinal de contas, nada queria dizer. No
lhe passava pela cabea que aquilo no passava de uma fachada para simplesmente ocultar a verdade; uma verdade to horrenda que at agora ela no conseguia encar-la.
Nem mesmo seus pais sabiam qual o verdadeiro motivo que a havia levado a deixar Londres. Alis, ningum sabia. Era um segredo amargo, que ficaria trancado em seu
corao at o dia de sua morte.
      Enquanto seguia o garom at o hotel, Chloe procurou pr de lado todas suas preocupaes relativas ao passado, concentrando-se na situao em que se encontrava.
O gerente acolheu-a com um sorriso que dissipou seus temores e convidou-a para sentar-se.
      - Felizmente um dos nossos diretores encontrava-se em nosso escritrio de Atenas, quando lhe telefonei ainda h pouco. Expliquei-lhe o que acontecia e ele
prometeu que faria todos os esforos possveis a fim de regularizar a sua situao.
      Sorrindo com gratido, Chloe levantou-se. Pelo visto, tudo terminaria bem.
      - Agora resta-lhe aproveitar as frias. Assim que tiver outras notcias, a senhorita ser informada.
      Tudo aquilo no deixava de ser reconfortante, mas no significava muita coisa, pensou Chloe, quando se viu a ss em seu quarto. Felizmente todas as despesas
do hotel haviam sido pagas antes de ela deixar a Inglaterra e em Thos no havia tantas oportunidades de se gastar dinheiro. Mesmo assim era extremamente desagradvel
ver-se cm um pas estrangeiro com apenas dez libras na bolsa.
      Atrasou-se para o jantar e, ao entrar no restaurante, verificou que quase todas as mesas j estavam ocupadas. Um garom sorridente colocou-a a uma mesa com
um simptico casal ingls de meia-idade que, pela segunda vez, passava as frias em Thos.
      - A ilha no  suficientemente grande para que se alugue um carro - observou Richard Evans,  hora do caf - e felizmente no possui muitas estradas. Algumas
vezes invejo esses milionrios gregos que adquirem uma ilha.
      A conversa prosseguiu agradavelmente e quando o gerente surgiu a seu lado, Chloe ficou surpreendida ao notar como o tempo havia passado depressa. Aqueles momentos
foram to descontrados que quase chegara a esquecer o passaporte e os cheques roubados.
      - Tem alguma notcia para mim? - indagou, na esperana de que Derek, arrependido, houvesse deixado o passaporte no aeroporto.
      - A senhorita dever ir para Atenas. J est tudo providenciado. Um helicptero est aqui, a fim de transport-la, e, ao chegar  capital, haver algum 
sua espera...
      - Atenas? Mas...
      -  necessrio. A perda de um passaporte  coisa muito sria. A senhorita precisar preencher formulrios, apresentar-se s autoridades...
      Claro que ele tinha razo, pensou Chloe. Seu passaporte no tinha sido simplesmente perdido, mas roubado. Mordeu o lbio, tentando imaginar quanto tempo levaria
para chegar a Atenas e o que precisaria levar. Certamente uma muda de roupa seria mais do que suficiente.
      - A senhorita passar uma noite no nosso hotel de Atenas, e pela manh tomaremos todas as providncias necessrias.
      Chloe agradeceu efusivamente e o gerente, amvel como sempre, informou que a acompanharia at o helicptero, assim que ela estivesse pronta.
      A viagem de helicptero certamente lhe pouparia muito tempo. Com alguma sorte estaria de volta  ilha dentro de vinte e quatro horas, prazo suficiente para
resolver todas as questes. No seria m idia dirigir-se  Embaixada da Inglaterra enquanto estivesse em Atenas, a fim de relatar o que estava acontecendo. Logicamente
teria de tomar muito cuidado com o que diria. Sentia-se furiosa com Derek,  claro, mas mesmo assim no desejava compromet-lo em um processo.
      O helicptero decolou rapidamente e dentro de alguns minutos voavam sobre a pequena baa, onde barcos de pesca preparavam-se para navegar para o mar alto.
      Chloe no tinha a menor idia de quanto tempo levariam para chegar a Atenas. Sabia que passavam por outras ilhas, pontos de luz emergindo do mar, mas no conseguia
distinguir o continente.
      O helicptero comeou a diminuir sua velocidade e Chloe olhou instintivamente para baixo, esperando ver as luzes do Aeroporto Internacional de Atenas. No entanto,
divisou apenas um facho de luz solitrio, vasculhando a escurido do cu.
      Aquilo no era Atenas, ela constatou, enquanto o helicptero aterrissava. Olhou para o piloto, mas ele j saa pela porta, afastando-se dela. Uma brisa suave
soprava, carregando com ela o odor perfumado do alecrim.  distncia, Chloe conseguia ouvir vozes masculinas que se exprimiam em grego. Tomada subitamente de pnico,
abriu a porta e caminhou s cegas. Teria cado se uma mo de homem, muito calejada, no a amparasse.
      - Siga-me, senhora.
      O tom era seco, mas nem por isso pouco gentil. Chloe abriu a boca para perguntar onde se achava, mas julgou melhor no dizer nada, enquanto ela e seu guia
percorriam uma trilha que subia por uma colina. Em determinado momento ela voltou-se e olhou na direo do helicptero, cuja hlice girava com velocidade cada vez
maior, preparando-se para decolar.
      - Mas o que est acontecendo? - indagou, tentando no demonstrar que sentia medo. O homem, que segurava seu brao, no deu a menor resposta, limitando-se a
apertar o passo.
      De repente encontraram-se em um ptio iluminado por postes espalhados pelo jardim e em torno da piscina. A casa encontrava-se igualmente bastante iluminada,
mas parecia deserta. O medo fez com que a fronte de Chloe ficasse molhada de um suor gelado. Normalmente conseguia controlar sua imaginao, mas naquele momento
sentia que toda sua sensatez a desertava.
      - Onde estou? Por que me trouxe at aqui?
      Algum movimentou-se por detrs das janelas. Chloe conseguiu distinguir a sombra de um homem alto, atltico, que desceu a escadaria do ptio e aproximou-se
deles.
      O homem que conduzira Chloe a segurava com menos fora, mas ela no conseguiria se mexer, mesmo que desejasse. O medo estampava-se em seus olhos e o desconhecido,
aps aproximar-se, respondeu s suas perguntas com aquela voz calma e bem modulada, da qual ela se lembrava to bem e que ainda agora a deixava quase tonta, tamanha
sua excitao.
      - Voc est em Eos, a Ilha da Alvorada. Quanto aos motivos ... bem, creio que voc conhece a resposta, Chloe.
      Leon fez um gesto e o homem soltou-a, desaparecendo na escurido. Como sempre, ele procurava tirar vantagens de toda e qualquer situao, pensou Chloe com
amargura. Leon era bem mais alto do que ela e sua postura arrogante revelava a determinao de subjug-la. No entanto ela no era mais aquela garota tola e influencivel
que o havia desposado. Agora tornara-se uma mulher, e tinha pleno conhecimento de tudo que lhe haviam ocultado em sua juventude. Moveu-se ligeiramente, de maneira
a obrigar Leon a fazer o mesmo. Chloe conseguiu distinguir melhor os traos dele, que basicamente no haviam mudado, tornando-se apenas mais duros, como o mrmore
que no se deixa afetar pela inclemncia do tempo. Ele sempre fora bonito, mas agora que cara o vu da inocncia, Chloe percebeu a sexualidade agressiva daquele
rosto; a estrutura dos ossos, to mscula; os lbios recurvos e sensuais. Ele usava os cabelos mais longos do que no passado e Chloe apertou involuntariamente os
dedos, ao recordar o quanto eles eram sedosos... Os olhos de Leon eram esverdeados e herdados de uma antepassada longnqua, uma inglesa que havia viajado at a Grcia
 procura de Lord Byron, mas que se apaixonara pelo trisav do rapaz e ali permanecera, dando-lhe vrios filhos.
      - Voc disse que eu conheo a resposta...
      Ela agora recorria  experincia que havia adquirido desde que se separara de Leon e  capacidade de mascarar seus verdadeiros sentimentos. No tinha a menor
idia do que ele desejava, mas nem por isso iria demonstrar o quanto sua inesperada apario a irritara.
      Nada do que ele pudesse dizer ou fazer conseguiria afet-la. O amor que sentira um dia por ele no passara do entusiasmo de uma adolescente por um homem bonito
e sexualmente experiente. Na verdade, o homem a quem amara nunca existira. Lembrou-se de como ele havia dissolvido todas suas barreiras, de como a transformara em
uma mulher apaixonada, provocando nela reaes que jamais sonhara ter. Tudo aquilo, porm, no passara de uma quimera, de uma armadilha preparada com egosmo e sangue
frio.
      - Voc quer se divorciar? Quanto a mim, no h a menor objeo. Meu caro Leon, no havia a menor necessidade de recorrer a uma atitude to ridcula.
      - Concordo, mas no tive todo esse trabalho s porque quero me divorciar, Chloe.
      - Mas ento, o que deseja?
      - Voc, Chloe. - Ele se exprimiu com tamanha suavidade que ela chegou a pensar que no o havia compreendido. - Eu a quero, pois  minha esposa. Nenhum grego
permite que a mulher que o abandona permanea impune. Sua maior punio ser obrig-la a voltar a desempenhar o papel que voc abandonou com tamanha precipitao,
e publicamente.
      Chloe deu-lhe as costas, desesperada, mas era tarde demais. Dedos rijos como o ao agarraram sua cintura e ela se viu impulsionada de encontro a um peito que
arfava de raiva.
      - Sua ordinria... voc sabe atingir onde di, no  mesmo? Vai me pagar, Chloe! Quando me deixou, devia ter lembrado que sou grego, e os gregos jamais esquecem
ou perdoam um insulto.
      - Recuso-me a voltar com voc! Jamais farei semelhante coisa!
      - Voltar, sim - disse ele, em tom ameaador. - No s isso... voc me dar um filho, para substituir aquele que destruiu!
      Subitamente Chloe teve a impresso que um grande abismo negro se abria diante de seus ps e ela mergulhou nele, como se casse nas profundezas do inferno.


      CAPTULO II

- A
 senhora est cansada e precisa repousar.
      Passaram-se alguns segundos antes que Chloe conseguisse situar aquela voz que tinha um leve sotaque. Inicialmente julgou que estava em Paris, onde havia passado
o final da adolescncia e se acostumara a ouvir sua lngua falada com inflexes francesas. Logo em seguida despertou completamente, lembrando-se de onde estava e
por qu.
      Sentou-se na enorme cama de casal, que mal ocupava espao em um quarto to grande que dava duas vezes o tamanho de seu pequenino apartamento de Londres.
      O aposento era decorado em tons suaves de verde e prata. Cores de sereia... Chloe estremeceu ao recordar de onde provinham tais palavras. Leon as usara para
descrever um vestido que lhe havia comprado em St. Tropez. Leon... Ela cerrou os olhos, fazendo o possvel para se manter calma e, quando voltou a abri-los, uma
mulher baixinha e rechonchuda a encarava ansiosamente.
      - O senhor havia dado ordens para que a senhora no fosse acordada. Gina, voc perturbou a senhora com todo esse barulho! - disse, repreendendo a jovem que
estava a seu lado, carregando uma bandeja.
      A garota parecia estar a ponto de chorar e Chloe encarou-a, forando um sorriso.
      - No tem importncia... Pode deixar a bandeja.
      Ela comeava a recordar os acontecimentos da noite anterior e estremeceu, ao lembrar-se do olhar de Leon, ao dizer que pretendia vingar-se dela por t-lo envergonhado
publicamente, quando o abandonou. Ainda bem que no havia ningum no quarto para testemunhar como suas mos tremiam, ao rememorar a voz spera de Leon, quando ele
declarou que ela deveria dar-lhe um filho, a fim de substituir a vida que ela havia destrudo.
      Chloe ps a bandeja de lado, levantou da cama e dirigiu-se para a janela. A vida que ela havia destrudo... Intimamente estava muito agitada. Ser que ele
ainda achava que ela poderia engan-lo? E por que tamanha mudana?
      - Chloe...
      Ela voltou-se, assustada, pois no havia percebido Leon entrar no quarto. Preferia no enfrent-lo naquela situao, pois estava de camisola e no conseguia
disfarar a expresso de medo estampada em seu olhar. Ele, por sua vez, usava um elegante terno e tinha os cabelos midos, como se tivesse acabado de sair do chuveiro.
Uma sensao de fraqueza apoderou-se dela e seu corpo, traioeiro, lembrou-lhe outras ocasies, quando havia entrado debaixo do chuveiro com ele, o que lhe proporcionara
grande prazer...
      - Por favor, deixe-me ir embora, Leon. Voc no pode me reter aqui indefinidamente. No  possvel. Por que est agindo assim? No vejo o menor sentido nisso.
      - No mesmo? Pois ento o seu raciocnio deve ser muito lento...
      Leon olhou para a grande cama e sorriu cinicamente.
      - Ontem  noite foi apenas uma trgua. Alm do mais, quando eu a tomar nos meus braos, quero que voc tenha muita certeza do que est lhe acontecendo, Chloe.
No pense que, pelo fato de desmaiar como uma herona de romance, conseguir escapar de mim.
      - Quer dizer, ento, que voc espera que eu...
      Chloe no conseguiu prosseguir, pois sentia um n na garganta. Sabia que, na vspera, Leon lhe comunicara por que havia se decidido a traz-la para a ilha,
que, pelo visto, era habitada unicamente por ele e seus empregados. No esperava, porm, que ele levasse suas intenes adiante.
      - Voc no pode fazer uma coisa destas! No pode!  ilegal, Leon!
      - Como? Acha ilegal um homem apoderar-se de sua mulher? A lei grega no pensa assim, Chloe. Na verdade, muitos dos meus compatriotas achariam que fui excessivamente
tolerante. Voc me abandona, me humilha diante de todos os meus amigos, encoraja-os a indagarem como eu posso controlar um grande imprio se no consigo controlar
uma mulherzinha e depois ainda vem me dizer o que posso e o que no posso fazer? Aqui, na ilha de Eos, a minha palavra  lei, Chloe, e ao ir para a ilha de Thos
voc caiu em meu poder. H algum tempo estava imaginando meios de traz-la de volta para a Grcia. O fato de voc ter vindo por vontade prpria foi para mim um triunfo
inesperado.
      Uma suspeita terrvel comeava a se apoderar de Chloe e ela olhou  sua volta.
      - Ento quer dizer que...
      - Que tomei providncias para que o seu "amigo" a abandonasse? Voc jamais conseguiu julgar as pessoas com objetividade, no  mesmo? A "amizade" do tal sujeito
foi uma grande decepo. No se incomode, voc no sentir a menor falta dele... Era seu nico amante?
      Chloe estava a ponto de dizer a verdade, mas mordeu o lbio. No desejava que Leon soubesse que, aps a separao, no houvera mais ningum em sua vida.
      - Claro que eu poderia simplesmente mandar rapt-la em Londres, mas achei que assim foi menos... complicado. Sabe, Chloe, quando me abandonou, voc fez muito
mais do que simplesmente acabar com o nosso casamento. Na Grcia encaramos essas coisas com muita seriedade, e o fato de uma mulher deixar seu marido confere a ele
uma reputao difcil de ser desfeita.
      - E ento, o que devo fazer? Comunicar a todo mundo que agi muito mal e que voc  o mais perfeito de todos os maridos? Voc se excedeu, Leon. No momento em
que me deixar sair desta ilha, voltarei a abandon-lo. Se me mantiver encarcerada aqui, ningum ir acreditar que reatamos o nosso casamento. A nica maneira de
eu conceber um filho seu ser atravs da violncia. Estou me referindo ao estupro, Leon, pois  disto que se trata. No quero voc e nem seu filho!
      - Sua...
      Por alguns momentos Chloe acreditou que Leon iria esbofete-la, mas ele conseguiu dominar-se. Somente a expresso de seu rosto revelava a selvageria das emoes
que ela havia despertado. Chloe queria desviar o olhar, mas algo a impedia. Sentia-se mal e tudo aquilo que ela havia lutado para suprimir, durante tanto tempo,
agora a fazia estremecer.
      Leon aproximou-se dela e seus dedos se enterraram na carne tenra dos braos de Chloe, enquanto seu olhar passeava lentamente pelo seu corpo.
      - Ontem  noite as criadas a despiram e a levaram para a cama. No sabem nada do nosso relacionamento, a no ser que estivemos separados e voltamos a nos encontrar.
Esta noite e todas as noites que se fizerem necessrias a fim de que voc conceba meu filho, partilharemos este quarto e esta cama. Seu passaporte est comigo, Chloe,
e sem ele voc  virtualmente minha prisioneira, quer permanea nesta ilha, quer se refugie em Atenas.
      - E Marisa? Onde  que ela entra em tudo isso? Ela no ter nada a dizer em relao aos seus planos de se tornar pai? Ou j esqueceu que foi ela quem destruiu
o nosso primeiro filho?
      Dessa vez Leon esbofeteou-a para valer. O choque, mais do que a dor, a fez cambalear. Leon estava to plido quanto ela.
      - Nunca mais diga semelhante coisa. Est me entendendo? Nunca mais! Marisa...
      Leon no terminou a frase, pois a porta se abriu e uma jovem grega entrou. A expresso de seu olhar tornou-se dura, no momento em que ela viu Chloe.
      - O que ela est fazendo aqui? Leon, voc...
      Suas unhas, muito longas, estavam pintadas de vermelho e combinavam com o batom reluzente, que enfatizava lbios sensuais.
      H trs anos, quando Leon lhe falara de sua meio-irm, por quem era responsvel, Chloe visualizou uma adolescente tmida e desajeitada, de quem poderia tornar-se
amiga; uma garota talvez necessitada de orientao e afeto, s que Marisa demonstrou no precisar recorrer em absoluto  mulher de seu irmo. Chloe levou as mos
ao ventre, em um gesto instintivo, antes de lembrar que j no levava dentro de si uma vida humana necessitada de proteo.
      Marisa acompanhou o gesto com o olhar e voltou-se para Leon, indignada.
      - O que ela est fazendo aqui? Por qu?
      O brao que rodeou a cintura de Chloe era firme e poderoso. Ela tentou desvencilhar-se. Conseguia sentir o hlito quente de Leon de encontro a seus cabelos,
mas virou a cabea, enojada com a falsidade do que acontecia. Era evidente que Marisa desconhecia por completo sua presena na ilha e Chloe s podia deduzir que
Leon insistia em reatar o casamento a fim de proteger a garota. No que Marisa desse a menor importncia  opinio alheia. Por ela, teria vivido abertamente com
Leon. J deixara isso bem claro para Chloe. Fora Leon que insistira, a fim de que eles observassem as convenes. Ele decidira encontrar uma esposa calma e fcil
de ser manejada, ingnua demais para perceber o que estava acontecendo sob seus olhos. E ela, Chloe, tinha sido aquela esposa, at Marisa, enlouquecida pelo cime,
abrir seus olhos para a verdade.
      - A presena de Chloe  necessria.
      Quando Leon se exprimia naquele tom, nem mesmo Marisa ousava discutir. Chloe percebeu que os olhos dela fuzilavam de raiva e ficou a imaginar se Leon a estava
castigando de maneira um tanto sutil. Sua suspeita aumentou quando ele segurou-lhe o rosto, forando-a a encar-lo.
      - No  mesmo, Chloe?
      Leon murmurou a pergunta bem junto a seus lbios, em um gesto deliberadamente sensual. Chloe tentou no sucumbir, mas a tenso que se apoderava dela era mais
eloqente do que qualquer palavra. Notou que Leon havia percebido o que se passava com ela. Chloe teve a impresso de que agora ele a segurava com mais fora, encostando-se
nela para valer, de tal modo que ela teve plena conscincia da perturbadora virilidade daquele homem.
      Fora assim desde a primeira vez que se encontraram. Leon viera assistir a um desfile de modas. Ela usava um vestido de noite, sbrio e elegante e, quando seus
olhos se cruzaram, Chloe teve a impresso de que eles se haviam tocado. Durante os anos em que haviam ficado separados, ela chegou a se convencer de que agora estava
a salvo daquela espcie de solicitao sexual, mas agora que os dedos de Leon percorriam suas costas, Chloe percebeu que ela ainda o excitava e que ela, por sua
vez, continuava desesperadamente vulnervel.
      Chloe abriu os olhos, engolindo com dificuldade, e Leon a contemplava, como um gato que ronda um rato prisioneiro de uma ratoeira. Durante alguns segundos
imaginou que ele fosse beij-la e umedeceu instintivamente os lbios, tremendo sem parar.
      O barulho de uma porta que se fechava com violncia a trouxe de volta  realidade. Marisa havia se retirado e eles estavam a ss. Leon soltou-a e seu olhar
irnico indicava que ele tinha plena conscincia do quanto a deixara perturbada.
      - Voc ainda  minha mulher, Chloe. Na Grcia a esposa de um homem pertence a ele e deve fazer tudo o que ele quiser.
      - E ambos sabemos o que voc quer fazer comigo! Deseja me engravidar. Por que, Leon?
      - Todos os homens querem filhos, no  mesmo?  uma lei da natureza. Sou rico e preciso ter herdeiros. Voc  minha mulher...
      - Oh, pelo amor de Deus, pare de dizer isso! Ambos sabemos por que sou sua mulher e por que voc casou comigo...
      Antes que Leon pudesse responder, o mesmo homem que acompanhara Chloe na noite anterior bateu na porta. Ele entrou e comunicou que havia um telefonema de Nova
York para Leon.
      - No tente fugir, pois  impossvel - avisou Leon, antes de sair. - Mesmo que conseguisse escapar da ilha, o que, alis, s  possvel a nado, eu ainda tenho
o seu passaporte.
      Chloe no ousava pensar o que os criados deveriam estar achando daquela situao. Dez minutos mais tarde ela tomava uma ducha no banheiro contguo ao quarto.
Era decorado com as mesmas cores do aposento e tinha uma banheira redonda, embutida no cho, rodeada por ladrilhos de mrmore verde. Chloe estendeu a mo para pegar
a toalha e contemplou seu corpo nu ao espelho que ocupava toda a parede. Marcas arroxeadas comeavam a aparecer nos lugares em que Leon a havia agarrado. Ainda agora
no conseguia acreditar que estava em Eos como prisioneira de Leon. Seu olhar pousou instintivamente na cama, que avistava atravs da porta aberta do banheiro. Leon
falava em compartilharem aquela cama com a mesma desenvoltura com que lhe proporia dividirem um txi. Um arrepio percorreu todo seu corpo, ao recordar como tinha
se sentido naqueles braos. Na realidade, Chloe deveria experimentar indiferena e at mesmo dio. Sua mente repelia a atitude cnica de Leon, mas seu corpo ainda
reagia a suas provocaes...
      Uma mulher jamais esquece seu primeiro amante. Chloe estremeceu, ao lembrar ter lido um dia essa frase. Era verdade e tinha a sensao de que o toque de Leon
era quase um cdigo secreto, ao qual ela sempre reagiria.
      Chloe vestiu-se e tentou raciocinar. Afinal de contas ela era um ser dotado de vontade e no uma mquina. Sua mente, com toda certeza, era capaz de superar
a fraqueza de seu corpo. No tinha dado provas disso durante os dois ltimos anos? Mas era fcil manter-se casta quando no havia tentaes, disse uma pequenina
voz interior... Chloe, porm, recusou-se a ouvi-la. O amor que um dia imaginara sentir por Leon havia morrido e as emoes que ela experimentava agora no passavam
de uma simples reao ao fato de ele ter surgido subitamente em sua vida.
      De repente lembrou-se da expresso de Leon, quando declarou que exigia dela a criana que ela lhe negara. Como ele era capaz de fazer semelhante acusao?
Talvez isso fosse apenas mais um exemplo de sua maneira tortuosa de pensar. Um homem capaz de seduzir sua meio-irm e desposar outra mulher a fim de disfarar aquela
situao escandalosa era com certeza capaz de tudo. E, no entanto Chloe seria capaz de jurar que, por alguns instantes, houvera dor naquela voz, quando ele se referiu
ao filho que ela deveria ter gerado, ao filho que Marisa havia destrudo, movida pelos cimes. Leon, no entanto, sempre se recusara a acreditar que Marisa fora responsvel
pela queda de Chloe. Durante os primeiros meses de seu casamento, antes que ela soubesse a verdade, Chloe jamais conseguira compreender como um homem to inteligente
quando Leon conseguia aceitar com tamanha facilidade as mentiras de Marisa. Talvez no fosse nada de muito srio, mas elas tinham a inteno de colocar Chloe em
m situao. Ela no percebia,  claro, que Marisa no a encarava como cunhada, mas como uma rival e da a intensidade de seu cime. E Marisa tinha a vantagem de
exercer uma dupla solicitao em relao a Leon: como meio-irm e como amante...
      Amante! Que palavra to antiquada, cheia de conotaes a quem mais ningum dava importncia... No entanto o incesto permanecia um tabu. Segundo os padres
gregos, Leon havia cometido um pecado imperdovel. Aos olhos de um grego no existia maior responsabilidade do que aquela que um homem deve ter em relao a suas
irms. Marisa j deveria estar casada h muito tempo, pois tinha vinte e dois anos. Ela, porm, jamais se prestaria a isso. Comunicara sua recusa a Chloe, no mesmo
dia em que lhe revelara que ela e Leon eram amantes h muitos anos.
      - Chloe!
      Ela no ouviu Leon entrar no quarto. Ele havia mudado de roupa e agora usava jeans e uma leve camisa de algodo, que modelava os msculos poderosos de seu
peito e ombros. Uma dor aguda como um punhal penetrou no corao de Chloe. Era exatamente daquele jeito que ele se vestia durante as breves semanas de sua lua-de-mel,
quando ela ainda acreditava que era amada por ele, quando temia ser incapaz de ficar  altura de um homem to sofisticado e experiente, devido  sua inocncia e
 educao severa que havia recebido.
      Leon havia silenciado suas dvidas com beijos embriagantes, afirmando que ela no deveria se preocupar, pois deveria aprender com ele, da mesma forma que Marisa
havia aprendido...
      - O que voc quer, Leon?
      Essas palavras foram pronunciadas com aspereza e Chloe arrependeu-se imediatamente. Os olhos de Leon fuzilaram de dio e ela notou que o havia deixado muito
aborrecido. Logo que o conhecera, percebera que Leon era dono de uma vontade frrea. Quando apresentou objees, dizendo que no se conheciam o suficiente para se
casarem, ele esmagou sua recusa com o ardor de seus lbios, anulando seus temores com tal sensualidade que ela no conseguiu lhe negar mais nada. E ele sabia perfeitamente
disso. Como devia ter rido dela! Como havia facilitado a situao para Leon! Nem sequer conseguiu disfarar perante ele como se sentia. Poderia t-la seduzido com
a mesma facilidade com que seduziu Marisa e ela no teria levantado a menor objeo. Quem sabe teria sido melhor se ele tivesse agido assim? Afinal de contas, era
mais fcil abandonar a amante do que a esposa.
      - Voc sabe muito bem o que eu quero: um filho para substituir aquele que voc destruiu. Voc o dar, Chloe.
      - E Marisa j sabe desse seu desejo to sbito e compulsivo? Sei como se sente era relao a ela, Leon, e conheo os sentimentos de Marisa em relao a voc.
O que pretende fazer? Pedir divrcio, uma vez que eu d  luz esse filho que voc tanto deseja?
      - Pretendia ir a Atenas agora de manh -- declarou Leon, mudando de assunto - mas o meu compromisso foi cancelado e aproveitarei para lhe mostrar a propriedade.
O encontro era importante, mas o meu scio compreendeu perfeitamente que eu no teria condies de estar presente, pelo fato de ter reencontrado to recentemente
minha mulher.
      Aquelas palavras encobriam uma ameaa sutil, mas Chloe se recusou a tomar conhecimento delas.
      - Como minha mulher voc ter de assumir determinadas responsabilidades. Pela posio que ocupo, tenho de dar festas, receber gente e acho bom que voc se
familiarize com a casa.
      - E voc correria tamanho risco? J no sou mais criana para receber ordens, Leon. Voc talvez consiga manter-me nesta ilha contra a minha vontade, mas no
poder me impedir de relatar a seus amigos o que est fazendo. Voc j me usou uma vez e isso no voltar a acontecer.
      - Faa como bem entender. Na Grcia a esposa de um homem  propriedade dele e deve agir conforme seus desejos. Todos zombaro de voc, Chloe, caso ouse se
queixar. Todos me elogiaro por trat-la como uma mulher que abandona seu lar deve ser tratada. Muitos deles acharo sua punio extremamente leve. Os homens gregos
no tm escrpulos em bater em suas mulheres, mas voc no precisa preocupar-se comigo. Dominar algum fisicamente no me atrai.
      - Como voc ousa dizer semelhante coisa, quando, h cinco minutos, declarava que iria me forar a ter um filho seu...
      - For-la? Voc vive empregando essa palavra, mas devo lembrar que entre ns nunca foi necessrio recorrer  fora, no  mesmo?
      Chloe tentava encontrar palavras que lhe permitissem negar aquela observao, mas Leon j a puxava para perto dele, enfiando a mo por debaixo de sua blusa.
Ficou extremamente tensa, enquanto ele acariciava suas costas, passando em seguida a tocar-lhe os seios.
      - Leon!
      -  isso que voc chama de fora, Chloe? - ele perguntou suavemente, enquanto seus dedos experientes manipulavam os bicos dos seios, at que o desejo percorreu
todo o corpo dela.
      - Pare com isso! Pare com isso!
      Ela no ousava encar-lo, pois tinha certeza de que surpreenderia unicamente ironia em seu olhar. Como os homens eram capazes de duplicidade! Leon amava Marisa,
no entanto se mostrava decidido a ter uma relao com ela!
      - No farei semelhante coisa, Leon. No serei forada a me desprezar, dando-lhe um filho que satisfaa os seus instintos paternos. Voc  capaz de me excitar
fisicamente, mas...
      - Mas voc se odeia por permitir que semelhante coisa acontea, no  mesmo? O que aconteceu com a garota com quem me casei, Chloe? A garota que se entregou
a mim to espontaneamente, que experimentou tanto prazer quando eu a possu?
      - Ela no existe mais...
      - No mesmo?
      Chloe notou tarde demais a expresso sensual estampada no olhar dele e no conseguiu impedi-lo de beij-la com uma fora to grande que chegou a machucar-lhe
os lbios, levando-a a sentir o gosto do sangue. Pela primeira vez na vida Chloe experimentava a degradao de um beijo, destinado a provocar dor, no lugar do prazer.
      - J que voc quer fora, no duvide de que a ter - disse Leon, soltando-a de repente. - Agora vamos dar uma volta pela casa ou prefere que permaneamos aqui,
onde posso for-la a substituir a criana que voc destruiu?
      "Que ela destruiu", pensou Chloe, enquanto seguia Leon corredor afora. Ser que ele no desistia de prosseguir com aquela histria ridcula?
      Seus lbios estavam inchados, mas ela no ousava toc-los, receosa de chamar a ateno de Leon. Ele se aproximou e ela desviou-se, trmula.
      - No pretendo violent-la em pleno corredor, mas arrume-se, a menos que queira que todos os criados desconfiem que acabamos de fazer amor...
      Leon apontou para a sua blusa, toda amarrotada, e que estava , para fora da saia. Afastando-se dele o mais que podia, Chloe ajeitou-se, odiando-se ao perceber
o quanto seus dedos tremiam. Queria dominar suas emoes, o que era uma maneira de provar a Leon que era imune a qualquer provocao sexual que ele pretendesse fazer.
No ntimo Chloe reconheceu que seus sentimentos importavam muito pouco para ele. Caso contrrio, jamais a teria trazido at a ilha, para preencher aquela finalidade.
      Leon insistiu em lhe mostrar a propriedade. Era muito maior do que ela havia imaginado, e dispunha de todo o conforto possvel. A ilha era inteiramente protegida
por um sistema eletrnico de segurana, alis, uma precauo necessria, observou Leon, sobretudo tendo em vista o quanto ele era rico. Chloe sabia que ele dizia
a verdade, mas no conseguiu deixar de sentir que Leon tinha outro motivo, ao lhe mostrar as complexas precaues tomadas para garantir a segurana. Era como se
reforasse seu comentrio anterior, ao dizer que ela no poderia de modo algum sair da ilha sem que ele soubesse. O olhar eletrnico podia enxergar muito mais do
que o olhar humano, e sem que fosse percebido!
      O nico transporte com que a ilha contava era o helicptero de Leon e, a no ser os moradores da propriedade, a ilha era completa-mente desabitada. Era pequena
demais para suportar uma populao, disse-lhe Leon, mas entre os penhascos havia pequeninas praias que a tornavam um paraso.
      A casa, pelo visto, tinha sido construda segundo a orientao de Leon e, enquanto ele lhe mostrava todos os aposentos, Chloe surpreendeu-se com uma certa
sensao de familiaridade. Finalmente entendeu a razo de tudo aquilo, ao entrar na sala de estar, decorada com elegante mobilirio italiano. A casa era quase uma
rplica da residncia que haviam visitado durante a lua-de-mel. Pertencia a um solteiro milionrio e amigos de Leon a alugavam. Para Chloe ela pareceu o cmulo
da elegncia e, apesar da casa de Leon ser maior, agora percebia o quanto se assemelhava com aquela outra, incluindo a moblia italiana que tanto havia admirado.
      A sala era inteiramente decorada nos mesmos tons de creme presentes no mobilirio, e as almofadas verdes combinavam com a bela coleo de jade disposta em
uma grande estante de cristal.
      - Est reconhecendo? Contratei o mesmo arquiteto que construiu aquela casa na Riviera Francesa. Era um presente, para comemorar o nosso primeiro aniversrio.
      Por um momento Chloe sentiu suas defesas enfraquecerem, mas lembrou-se do quanto Leon gostava de representar um papel e acabou se controlando.
      -  mesmo? Isto me deixa surpreendida. Como  que voc se lembra dessa data? Achei que ela lhe traria recordaes desagradveis...
      - Voc bem sabe que a vingana  um sentimento que necessita ser constantemente alimentado. O fato de eu morar aqui sempre me trazia  mente as razes pelas
quais mandei construir esta casa e isso ajudou a nutrir o meu desejo de vingana...
      Ele se exprimia como se Chloe fosse a culpada de tudo, como se lhe cabesse a responsabilidade pelo fim daquele casamento, alis um casamento que no existia
como tal.
      - Pare de representar, Leon. No vejo o menor sentido nisso.
      Ele ia dar uma resposta, mas antes que pudesse falar Marisa entrou na sala. Estava muito plida e seus olhos fuzilavam.
      - Leon - disse, ignorando totalmente a presena de Chloe - Gina acaba de me dizer que voc lhe deu ordens para preparar uma sute para o casal Kriticos. Disse
tambm que Nikos vir na companhia deles. No admito uma coisa destas, ouviu? No suportarei a presena dele aqui. Recuso-me a ser obrigada a me casar s para que
voc tenha um herdeiro. No conseguir livrar-se de mim com tanta facilidade. - Marisa voltou-se para Chloe. - Saiba que  s isso o que ele quer de voc: um filho,
um herdeiro do seu imprio. No me casarei com Nikos. Prefiro a morte!
      - Voc est por demais exaltada. Discutiremos o assunto mais tarde, apesar de voc j saber a minha opinio.
      - Sei que voc quer se livrar de mim a fim de poder ter um filho com ela. Pois saiba que no permitirei! Voc me pertence, Leon! Isso no ir acontecer! Eu...
      Chloe afastou-se, enojada e, ao mesmo tempo, penalizada. No suportava ver Leon abraar aquela criatura frgil e ouvir as ameaas histricas de Marisa, enquanto
ele a levava para fora da sala.
      Acabava de ter uma prova do quanto Leon estava disposto a levar sua resoluo at o fim. Sabia muito bem que deveria sentir-se triunfante, agora que Marisa
experimentava a mesma dor e o mesmo desespero que ela havia conhecido um dia, mas a comiserao era o nico sentimento que aquela criatura lhe inspirava. Sabia que,
entre as famlias gregas, era costume os homens encontrarem maridos para as mulheres que deles dependiam, sobretudo nas famlias mais ricas, onde os cnjuges tinham
de ser escolhidos com muito cuidado. No entanto jamais sonhara que Leon exerceria esse direito em relao a Marisa!
      No esperou que ele voltasse para a sala e retirou-se para o quarto, onde mais uma vez a enorme cama atraiu seu olhar. Ser que Leon pretendia realmente compartilhar
aquela cama com ela? Havia em suas palavras algo de implacvel, que a preveniam da inutilidade de tentar discutir com ele. Alm do mais, o orgulho no permitiria
a Chloe humilhar-se ainda mais. Mas, ento, o que lhe restava fazer? Ter uma relao com aquele homem, na esperana de que conceberia rapidamente? Jamais! Deveria
existir um modo de fugir de Eos!


      CAPTULO III

C
hloe no pretendia descer para o jantar, mas ocorreu-lhe que Leon talvez viesse busc-la, considerando sua ausncia como uma aceitao muda de seus desejos. A saia
e blusa, alm de terem sido usadas o dia inteiro, no eram traje apropriado para o jantar, mas no dispunha de outras roupas.
      Saiu do chuveiro e ficou gelada ao perceber que havia algum no quarto. Felizmente era a jovem criada, a mesma que lhe servira o caf da manh.
      - Que vestido a senhora quer que eu separe?
      Chloe suspirou, pois o pouco grego que sabia no lhe permitira explicar que seu guarda-roupa limitava-se a uma blusa e saia de algodo, jeans e uma camiseta.
      - No tenho roupas... - comeou a dizer, mas a criada interrompeu-a com um sorriso triunfante, abrindo as portas do imenso armrio embutido que ocupava toda
a parede.
      - Ao contrrio, h muitas e muitas roupas! O senhor mandou busc-las em Atenas!
      Chloe olhou para o armrio repleto, sem acreditar no que via. Quando Leon planejava algo, no deixava de lado o menor detalhe. Ela caminhou lentamente at
o armrio, apontando para um vestido lils de seda pura. H quanto tempo Leon planejava obrig-la a voltar para a sua companhia?
      - Encomendei esses vestidos a Ren. Afinal de contas, foi ele quem fez seu enxoval. - Leon havia entrado no quarto sem que ela percebesse. - Ele ainda tem
as suas medidas...
      Aqueles vestidos eram muito mais sofisticados do que tudo que Chloe havia usado at ento, e muito mais caros! Cada um deles custava o equivalente a vrios
meses de seu salrio.
      - Leon, voc me trouxe at a sua ilha; talvez possa me forar a permanecer aqui e at mesmo a conceber um filho seu, caso prefira no recorrer ao estupro...
mas no pode me obrigar a usar estes vestidos...
      - Voc acha que no?
      Leon avanou para ela, com um sorriso implacvel. A criadinha havia sado discretamente no momento em que ele entrara. O quarto era enorme, mas ainda assim
Chloe teve uma sensao de claustrofobia, ocasionada principalmente pela presena sufocante daquele homem.
      Mais tarde ela censurou-se por ter sido to tola, mas, agindo instintivamente, deu um passo atrs, parando apenas ao perceber que sua fuga era impedida pela
cama.
      A toalha com que ela envolvera seu corpo oferecia uma proteo precria contra a inspeo sensual daqueles olhos cinza, que pousaram momentaneamente em seus
seios bem formados, antes de examinar o resto de seu corpo, e com tamanha insistncia que ela ficou intensamente ruborizada.
      - Pare com isso, Leon...
      Ambos sabiam que o que ele sentia por ela no passava da reao de um macho a um corpo de mulher. No entanto, por alguns segundos Chloe experimentou um desejo
to grande que, se Leon tivesse aberto os braos, ela no conseguiria controlar-se, atirando-se neles.
      A conscincia desse fato levou-a a se fortalecer e ela voltou a dizer que no usaria as roupas que Leon havia comprado. Levantou a cabea e tentou ignorar
a fora magntica da personalidade daquele homem. Quase conseguia sentir o ar palpitar com a excitao sexual que a presena dele invocava. Era algo que esquecera,
durante o perodo em que estavam separados. Quase conseguia sentir seu odor, experiment-lo na lngua, doce-amargo, indispensvel, inesquecvel... exatamente como
Leon, quando ele fazia amor!
      Pare com isso!, ela disse a si mesma, certa de que, para Leon, fazer amor com ela era um ato de guerra, o primeiro passo em direo a uma vingana maior.
      - Voc tem duas alternativas, Chloe - disse ele, imperturbvel, ignorando seus protestos. - Ou voc concorda em usar esses vestidos ou eu mesmo a vestirei.
Cuidado, se optar pela segunda alternativa... Poderia interpret-la como desejo de sentir as minhas mos no seu corpo mais uma vez!
      - Prefiro morrer!
      Chloe ficou intensamente ruborizada, enquanto lembrava que ainda h pouco estivera a ponto de abandonar-se ao magnetismo sexual de Leon.
      - Mentirosa! Eu poderia possu-la agora... poderia lev-la a me desejar, e ambos sabemos disso. Negue quanto quiser. Voc no pode esconder nada de mim, Chloe.
Talvez me odeie com a sua mente, mas o seu corpo... Seu corpo a trair, se voc o permitir, Chloe...
      - Nunca!
      - No? Est me pedindo que eu prove que voc  uma mentirosa? Essa  uma maneira sutil de voc indicar o seu desejo? Sinto muito, mas agora terei de decepcion-la.
Acontece que a minha cozinheira preparou uma refeio especial para comemorar a nossa reunio. Quem sabe mais tarde...
      - Voc est muito enganado. Eu no quero! E nada acontecer mais tarde!
      Chloe estava sendo absolutamente sincera, mas ento por que sentia aquela dor curiosa na boca do estmago, aquela inquietao que no lhe permitia relaxar?
Durante todo o tempo em que estivera afastada de Leon no sentira a menor vontade de ter um amante e, no entanto, agora, depois de v-lo durante algumas horas, seu
corpo e sua mente estavam invadidos pelas recordaes dolorosas dos momentos em que haviam feito amor.
      Assim que Leon se retirou, ela ficou olhando para o guarda-roupa. Quase valia a pena descer para o jantar de jeans e camiseta, s para ver a reao dele, mas
recordou suas ameaas, caso ela o desafiasse.
      Quase automaticamente sua mo pousou sobre um vestido de chiffon, em tons de lils e lavanda. Parecia ter sido feito especialmente para ela, admitiu, enquanto
o tirava do cabide. No entanto, ao vesti-lo, verificou que a coisa no era bem assim. No teve problema com as mangas compridas, que se abotoavam no punho por meio
de uma pequenina prola, mas a dificuldade estava nas costas e na regio da cintura, que ela no conseguia fechar.
      Chloe achou melhor acabar de se vestir e encontrar em seguida algum que a ajudasse a abotoar o vestido. Ps as sandlias de cetim, que combinavam com o traje,
e maquilou-se com muito capricho. Colocou em torno dos olhos uma sombra que realava a cor deles e passou um delineador nas pestanas. A saia batia pouco abaixo dos
joelhos. Monsieur Ren sempre dizia que aquele comprimento era o mais elegante que havia, e Chloe concordava.
      Quando saiu do quarto verificou que o corredor estava deserto, o que a deixou muito desapontada, pois esperava encontrar uma das criadas. Agora teria de procurar
mais algum para ajud-la. A porta do quarto  direita do seu se abriu e Leon apareceu, impecavelmente, vestido com uma camisa de seda branca e cala preta e estreita.
      - Voc escolheu esse vestido? Parabns.
      Chloe manifestou indiferena e fez o possvel para ignor-lo.
      - Voc est alguns minutos adiantada. O jantar costuma ser servido s oito, mas, se quiser, podemos tomar um drinque antes...
      - No, obrigada. Estava procurando algum que me ajude a abotoar s costas. Sozinha no consigo.
      - Ento, com licena. Afinal de contas, para que servem os maridos?
      Chloe no teve como evitar aqueles dedos to hbeis. Seus msculos ficaram muito tensos, em sinal de protesto, e enquanto esperava que ele acabasse com aquilo
abriu-se uma porta e algum se aproximou.
      - Leon!
      A voz de Marisa chegava a ser irritante e bastou olhar para ela para se perceber que a jovem estava furiosa. Aquilo no oferecia a menor novidade para Chloe,
pois ela j presenciara a cena mais de uma vez. A diferena era que, outrora, Marisa tomava todo o cuidado para esconder de Leon seus ataques de temperamento.
      Talvez agora ela se sentisse muito segura em relao a Leon e no se importava mais, refletiu Chloe. A jovem ignorou-a e, com os olhos fuzilando, voltou-se
para Leon.
      - Recuso-me a fazer o que voc quer, est me ouvindo? No casarei com quem quer que seja! Se voc me obrigar a isso, eu contarei a verdade. Eu...
      - Voc no far absolutamente nada - disse Leon, usando de uma firmeza para com a irm que Chloe jamais havia presenciado. - J discutimos exaustivamente este
assunto, Marisa, e no mudarei de idia.
      - Voc quer se livrar de mim! - acusou Marisa, com os olhos cheios de lgrimas. - Quer que eu saia do caminho por causa dela! Pois saiba que ele no liga a
mnima para voc - disse, voltando-se para Chloe. - Deseja apenas um filho, qualquer filho, contanto que o pai seja ele. Acontece que o fato de voc ser esposa dele
torna a escolha natural.
      - Marisa!
      Dessa vez havia uma ameaa definida na voz de Leon.
      - Vou dizer isto pela ltima vez: quando os meus amigos chegarem amanh com Nikos, voc se comportar como se deve. Alis, isto se aplica a vocs duas.
      - E se eu recusar? E se lhes contar por que voc voltou com sua mulher, e como?
      - Eu lhes direi simplesmente que voc no passa de uma garota ciumenta!
      - Isso era realmente necessrio? - indagou Chloe com voz trmula cinco minutos mais tarde, quando Marisa se retirou, batendo a porta do quarto com toda fora.
      - J  tempo de Marisa aprender que, se ela insistir em se comportar como uma criana, ser tratada como merece. Bem, o que acontece entre mim e minha irm
no  algo que deva deix-la preocupada. Acho curiosa essa sbita solidariedade em relao a ela, sobretudo tendo em mente as acusaes que voc lhe faz.
      -  mesmo?
      Chloe no se dispunha a explicar a Leon que sua solidariedade era exclusivamente a de uma mulher que havia sentido pena de outra mulher magoada pelo mesmo
homem. Pareceu-lhe que ele havia sido desnecessariamente cruel.
      Jantaram em meio a um silncio pesado, interrompido unicamente pelos passos dos criados que serviam a mesa. Chloe fingia apreciar a comida, por uma espcie
de considerao por Leon, mas se algum lhe perguntasse o que comia, duvidava que conseguisse dar a resposta certa.
      - Fui sincero no que disse a Marisa - declarou Leon, aps o jantar, enquanto tomavam caf na sala de estar. - Espero que voc desempenhe muito bem o papel
da esposa que voltou com o marido, Chloe.
      - E se eu achar o papel penoso demais?
      - Nesse caso precisamos dirigi-la muito bem, no  mesmo? Afinal de contas, os atos falam mais alto do que as palavras. Sei com que aparncia as mulheres ficam,
depois de passarem uma noite nos meus braos... Creio que isso basta para eu convencer os meus convidados!
      Dez minutos mais tarde, aps terminar de tomar o caf, Chloe pediu licena e levantou-se, recusando o convite de Leon para dar uma volta pelo jardim.
      - Para qu? Para que voc me mostre mais uma vez como o seu sistema eletrnico funciona bem? No, muito obrigada. J estou plenamente convencida.
      - Talvez no seja tanto a eficincia do meu sistema que voc teme, mas a sua prpria fraqueza, no?
      Leon riu, mais irnico do que nunca, e sua zombaria acompanhou-a enquanto ela caminhava para seu quarto.
      Enganava-se, se pensava que iria gozar por muito tempo da privacidade de seu quarto. Mal havia tirado o vestido e posto o neglige de seda que Gina havia deixado
sobre a cama e a porta do quarto abriu-se com estrondo.
      - Est-se preparando para receber Leon, no  mesmo? - perguntou Marisa, repleta de dio. - Voc sabe muito bem que ele no a quer. Deseja unicamente um filho.
Voc no passa de um instrumento para ele chegar l.
      - Voc j me disse isso, - observou Chloe, surpreendida ao notar a facilidade com que estava se dominando. Antes Marisa sempre conseguia controlar a situao,
fazendo-a perder a cabea e entrar em discusses das quais acabava por se arrepender. Talvez agora Chloe no tivesse mais nada a perder, mas, qualquer que fosse
a razo, sentia-se contente por conseguir enfrentar a garota calmamente e at mesmo sentir pena dela, ao notar seus olhos vermelhos e os cabelos em desordem.
      - Voc sabe muito bem por que Leon est me forando a casar com Nikos, no ? - perguntou Marisa. - Est obcecado pela vontade de ter um filho. Nada mais importa,
nem eu, nem voc e nem os seus negcios. S que as coisas no ficaro nesse p. Ver que tudo se modificar quando voc lhe der um filho.
      - Mas as coisas no precisam ser necessariamente assim - disse Chloe, pois acabava de ter uma idia brilhante. - Ajude-me a partir da ilha, Marisa. Sei que
voc no me quer aqui.
      - No quero mesmo - reconheceu a jovem com toda a franqueza - s que voc no poder escapar sem que Leon saiba. Ele no a deixar partir enquanto voc no
der  luz...
      - Para substituir aquele filho que Leon acredita que eu tenha destrudo de propsito... S que ambas sabemos que no foi verdade, no  mesmo, Marisa? Voc
destruiu meu filho, empurrou-me escada abaixo...
      Marisa, furiosa, retirou-se, batendo a porta mais uma vez. Chloe deveria ter imaginado que Marisa jamais admitiria a verdade. No entanto no havia como negar:
ela a empurrara de propsito.
      Chloe sentou-se diante da penteadeira e comeou a escovar os cabelos. Aquilo a relaxava e seus pensamentos voltaram-se para o passado.
      Era claro que tinha se sentido nervosa diante da perspectiva de conhecer Marisa. Era a parenta mais prxima de Leon e exercia uma papel importante em sua vida.
Durante o vo de Paris a Atenas, Chloe havia enchido Leon de perguntas relativas  jovem.
      Ele tinha respondido por meio de monosslabos e ela achou que sua reserva era motivada pelo cansao. Afinal de contas, Leon tivera de fechar alguns negcios
em Paris antes de partirem para Atenas. Tudo o que sabia a respeito de Marisa era que ela nascera do segundo casamento do pai de Leon. Era treze anos mais moa e,
desde que seus pais morreram, ela ficou inteiramente aos cuidados do irmo. Sua educao fora mais livre e moderna do que aquela que se permitia a jovens gregas
de sua classe social. Estudou no exterior, na Inglaterra e Sua, e poderia ter entrado para a universidade, caso o desejasse.
      Marisa estava  espera deles no apartamento de Leon, em Atenas. Chloe ficou maravilhada com o luxo do hall de entrada e da sala de estar de seu novo lar, decorados
com preciosas antiguidades e tapetes orientais. Notou que Marisa a recebia com certa frieza.
 medida que o tempo passava a frieza se agravou. Ela era sempre mais pronunciada quando Leon se encontrava trabalhando e Chloe no conseguiu ignor-la por
muito tempo. quela altura tinha certeza de que estava grvida, mas no comunicou o fato a Leon, pois no queria ter a menor dvida a respeito.
      Leon foi passar uma semana em Paris e ela lembrava-se muito bem do quanto sentira falta dele. Com que entusiasmo recebeu, por intermdio do mdico a quem fora
consultar, a notcia de que carregava em seu ventre um filho de Leon! Marisa mostrava-se mais difcil do que de costume. Criticava e ironizava a falta de familiaridade
de Chloe com coisas que a ela pareciam extremamente naturais, tais como fazer compras em uma butique da moda e pedir o que lhe agradava sem se importar em olhar
o preo.
      - Somente os novos ricos precisam fazer semelhante coisa - observou ferinamente, certo dia em que Chloe insistiu em se informar sobre o preo de um vestido
de veludo, antes de compr-lo.
      Agora uma tal grosseria no a incomodava nem um pouco, refletiu Chloe. Naqueles dias era profundamente insegura e desesperada por obter a aprovao de Marisa,
quase como se suspeitasse da verdade, mas sem desejar encar-la. Tentava se convencer de que no havia nada de anormal na maneira possessiva com que a garota considerava
seu irmo.
      Ficara bastante ansiosa e tocou no assunto uma ou duas vezes antes que Leon viajasse para Paris, mas em ambas as ocasies ele no tomara conhecimento, dizendo-lhe
que ela estava imaginando coisas. Tomou-a em seus braos e Marisa, bem como todos os que os rodeavam, passou para um segundo plano, diante do prazer que o ato do
amor lhes proporcionou. Se Chloe no fosse to ingnua, se no estivesse to apaixonada, teria desconfiado de algo, pois Leon mostrava-se estranhamente avesso em
falar a respeito de Marisa. Afinal de contas, ele no era um homem reservado e de difcil comunicao, surpreendendo-a mais de uma vez por sua capacidade de colocar
em palavras aquilo que ela somente conseguia sentir.
      No entanto Chloe s ficou sabendo da verdade no dia em que recebeu as notcias sobre o beb. Mais tarde se deu conta de que Marisa deveria ter lido a receita
do mdico. Como no era exatamente uma criatura tranqila, o fato de Chloe, sua odiada rival, gerar um filho de Leon, a levara a entregar-se a uma de suas incontrolveis
exploses de dio.
      Chloe encontrava-se no belo quarto, todo decorado em tons de ouro e bronze, onde ela e Leon dormiam, quando Marisa entrou intempestivamente. O quarto havia
sido decorado antes do casamento e Leon dera carta branca a Chloe para fazer as alteraes que ela desejasse, o que no foi o caso. Chloe amou as peas de laca chinesa,
os objetos de arte e os lindos e delicados painis de seda, bem como os pssaros de bronze e turquesa que enfeitavam as prateleiras. Aquele quarto lhe parecia perfeito.
      Estava para tomar um banho, pois havia passado a manh fazendo compras, e ficou muito surpreendida ao deparar com Marisa, a quem imaginava estar almoando
com uma amiga.
      Marisa foi direto ao assunto e seus olhos negros comunicavam todo o dio e cimes que sentia, ao revelar a espantosa verdade: ela e Leon eram amantes havia
quase dois anos.
      Inicialmente Chloe recusou-se a acreditar, mas Marisa sorriu com maldade.
      - Acaso eu lhe diria coisa to vergonhosa se no fosse verdade? No pode imaginar como me sinto, sabendo que jamais poderei viver com ele como se fosse sua
esposa? Que devo sempre ficar em segundo plano, como sua "irm"? Afinal de contas, por que acha que ele se casou com uma criatura to insignificante quanto voc?
No foi porque se apaixonou pelo seu corpo magro e pelos seus cabelos cor de palha, independentemente do que ele lhe disse na ocasio. No, ele a desposou para me
proteger! Na minha idade a maior parte das garotas j esto casadas. Dentro em breve as pessoas comeariam a murmurar. Foi para me proteger da maledicncia alheia
que Leon casou com voc. Para mim, agora, um casamento est fora de questo. Nenhum homem grego aceita um bem que j foi usufrudo por outro e, caso algum case
comigo, Leon ser convocado pela famlia do rapaz a fim de explicar o que aconteceu comigo. No imagino Leon dando uma explicao satisfatria. Voc tambm no,
creio.
      A despeito de sua fria, Chloe sentiu um certo elemento de satisfao nas palavras de Marisa, mas estava por demais deprimida para abordar o assunto. Leon
e Marisa... Leon casara com ela apenas para proteger sua meio-irm. Leon... No! E, no entanto, tudo aquilo fazia muito sentido: o modo como ele insistira para que
se casassem, antes que ela tivesse tempo de respirar; sua recusa em conversar a respeito de Marisa e a obsesso que a jovem tinha pelo irmo mais velho.
      Ela mesma, em Paris, no havia ficado intrigada diante do fato de algum como Leon escolh-la entre todas as mulheres que deviam ter passado por sua vida?
Notava o modo como as mulheres o encaravam nos restaurantes e nas ruas. Sempre que o olhava, o prazer, misturado ao medo, sacudiam todo seu ser e Chloe ficava a
imaginar o que Leon havia visto nela.
      Agora sabia. Possua uma qualidade que, mais do que qualquer outra, tornavam-na a mulher ideal para usar um anel de casada. Era uma criatura ingnua. A isso
devia acrescentar-se o fato de que estava desesperadamente apaixonada por Leon. Alm disso, era completamente inexperiente no plano sexual e no era de admirar que
Leon conseguisse convenc-la a celebrar aquele casamento to precipitado.
      E agora carregava em seu ventre o filho dele!
      Marisa devia ter adivinhado o que ela estava pensando, pois fizera um comentrio terrvel.
      - Leon no ficar nem um pouco contente. Um filho  a ltima coisa que ele desejar de voc! Como poder querer um filho seu, quando sabe que no poder jamais
recriar a si mesmo no corpo da mulher a quem ama?
      - No!
      Marisa ignorou aquela exclamao de desespero, insistindo no quanto Leon a amava e quo pouco se importava com Chloe.
      Chloe lembrava-se de ter sado do quarto, quase se arrastando,  procura de ar fresco, pois a nusea havia invadido todo seu ser.
      Marisa seguiu-a at o topo da escada, pois o apartamento era duplex. Chloe hesitou, tentando afastar aqueles pensamentos sombrios, assustadores, concentrando
toda sua energia em dominar a dor que crescia dentro dela a cada momento que passava.
      Chloe no conseguia lembrar como as coisas aconteceram exatamente. Marisa empurrou-a brutalmente e ela rolou escada abaixo, gritando de medo, enquanto seu
corpo batia nos degraus.
      O barulho chamou a ateno de todos os criados, que acorreram. A governanta foi a primeira a chegar. Chloe encarou-a, apertando o ventre e a senhora olhou-a
horrorizada. Marisa aproximou-se, extremamente plida, e chorava.
      Todos fizeram o que era possvel. No hospital a dedicao foi total. Marisa permaneceu ao lado dela at Leon voltar de Paris. Insistiram em cham-lo, a despeito
dos protestos de Chloe.
      Achou que jamais esqueceria a expresso de seu rosto, quando ele entrou no quarto. Chloe virou o rosto de lado, a fim de que Leon no notasse suas lgrimas.
Marisa dirigiu-se a ele e ambos se falaram. Logo em seguida Leon aproximou-se.
      - Por qu? - perguntou com amargura. - Por que foi que voc destruiu meu filho?
      As enfermeiras no deviam entender o que estava acontecendo, pois Chloe, que se comportara at ento com tamanha coragem, entregou-se ao pranto, desesperada.
Afastaram Leon discretamente, se bem que ele no manifestava agora muita vontade de ficar. No havia a menor dvida de que desejava estar a ss com a amante, pensou
Chloe com amargura, recusando-se a v-lo da prxima vez que ele veio ao hospital.
      No seu terceiro dia no hospital Leon insistiu em v-la. Precisava regressar a Paris, mas afirmou que conversariam quando ele voltasse. Esse dilogo simplesmente
no aconteceu. Assim que teve certeza de que Leon estava fora do pas, Chloe saiu do hospital e voltou para o apartamento. Retirou do banco dinheiro suficiente para
comprar uma passagem area, deixando para trs tudo o que possua, a no ser a roupa que vestia e a aliana de ouro que Leon enfiara em seu dedo no dia do casamento.
O anel de noivado, um enorme diamante, foi colocado na gaveta da penteadeira, juntamente com as demais jias que ele lhe presenteara. Assim que chegou a Londres
tirou a aliana.
      O fato de remover os signos exteriores de seu casamento tinha sido muito mais fcil do que lidar com seus sentimentos. Demorou quase um ano para conseguir
vencer a insnia e deixar de acordar todas as manhs com o rosto banhado de lgrimas.
      Chloe colocou a escova sobre a penteadeira e verificou se a porta estava bem fechada. Sabia que no havia como impedir Leon de entrar no quarto, caso ele assim
o decidisse, mas no estava disposta a se deixar surpreender. No permitiria que seu corpo se abandonasse ao fascnio e  persuaso que aquele homem sabia manejar
com tanta desenvoltura.
      Leon era sexualmente muito atraente, mas tambm um mentiroso e um hipcrita. Jamais desejara o beb que ela havia perdido, mas agora, que estava aparentemente
obcecado diante da idia de ter um filho, aquela perda era atribuda exclusivamente a ela! Havia contado tudo o que acontecera, quando ele fora v-la no hospital,
na esperana de que Marisa estivesse enganada e que ele a amasse. Leon limitara-se a encar-la com um olhar glido.
      - Marisa bem que me avisou que voc tentaria pr a culpa nela. No, Chloe, voc  a culpada e sabe disso muito bem. Se no estivesse to ansiosa por sair na
rua e esbanjar o meu dinheiro, teria sido bem mais cuidadosa.
      A acusao era to injusta que Chloe simplesmente no soubera o que dizer. Antes que conseguisse se dominar era tarde demais. Deprimida, s tivera foras para
suplicar a Leon que se retirasse e a deixasse em paz.


      CAPTULO IV

C
hloe no conseguiu perceber o que a levou a acordar. Apoiou-se em um cotovelo e logo ficou tensa.
      - Leon?
      - Estava esperando por mim? Que coisa mais lisonjeira! Mas voc no  mais nenhuma virgenzinha inocente, no  mesmo, Chloe? Agora tornou-se uma mulher, cheia
de desejos e necessidades!
      - As quais no o incluem! - disse Chloe, furiosa. - O que est fazendo aqui?
      - No momento, apenas tirando a roupa. Sabe perfeitamente bem por que estou aqui, Chloe, e quanto mais cedo...
      - Quanto mais cedo acabar, mais cedo voc ter seu filho e pedir o divrcio, no  mesmo? - disse Chloe, muito surpreendida ao sentir que estava a ponto de
chorar. Talvez isso tivesse a ver com o fato de que havia uma parte dela que jamais cessara de lamentar a perda de sua inocncia. Percebeu que se Leon conseguisse
for-la a fazer o que queria, ela jamais permitiria que depois ele lhe tirasse seu filho. Mordendo o lbio, Chloe procurou desesperadamente meios de derrotar Leon
e sua concentrao era perturbada pelo barulho constante da roupa que ia sendo removida.
      A porta do banheiro se abriu e fechou. Chloe ouviu o barulho da gua que corria, enquanto Leon abria o chuveiro, e agarrou rapidamente o roupo. Se sasse
do quarto enquanto ele estava no banheiro... O orgulho de Leon era o orgulho de um grego, conforme ela ia percebendo aos poucos. Um homem que se sentia afetado pela
curiosidade de seus amigos em relao  sua esposa fugida dificilmente sairia em perseguio a essa mesma esposa, forando-a a voltar para o quarto, onde qualquer
discusso conseguiria ser ouvida pelos criados.
      Assim que chegou  sala de estar Chloe acendeu as luzes e suspirou de alvio. Percebeu sobre uma mesinha algumas revistas e pegou uma delas, pondo-se a folhe-la.
Tinha certeza de que, mesmo que Leon a seguisse, ele dificilmente foraria um confronto em um lugar to exposto, sobretudo por saber que ela no disfararia sua
m vontade em voltar para o quarto em sua companhia.
      Pelo visto a coisa no seria to difcil assim, refletiu Chloe, depois que quinze solitrios minutos decorreram sem que ela ouvisse o menor barulho. Sentiu
que tinha de jogar o mesmo jogo que Leon. Ele, ao recordar o passado, pensava, sem a menor sombra de dvida, que bastava tornar Chloe consciente de sua presena
e esperar os resultados. Confiava nos sentimentos de quase adorao que ela manifestara um dia em relao a ele, mas aquilo havia chegado ao fim. Afinal de contas,
agora ela era uma mulher, conforme o prprio Leon havia observado com tanta ironia, e estava disposta a empregar as mesmas armas que ele. Se conseguisse mant-lo
afastado at que a famlia Kriticos chegasse, ela, com certeza, acabaria por encontrar meios de deixar a ilha com os hspedes, quando eles partissem... Poderia apresentar
uma desculpa que Leon dificilmente recusaria, como, por exemplo, a necessidade de fazer compras em Atenas. Ele, no entanto, ainda conservava o passaporte de Chloe.
Ela decidiu enfrentar a dificuldade apenas quando se fizesse necessrio. Aqueles acontecimentos comeavam a afet-la. Com o olhar perdido, deixou a revista cair
a seus ps e alguns minutos mais tarde aquele homem alto e moreno entrou na sala, diminuindo a intensidade das luzes. Chloe adormecera e ele ficou a contempl-la
durante alguns segundos, com uma expresso enigmtica estampada em seu rosto. De repente ela abriu os olhos e notou que Leon a encarava.
      - Como voc  esperta... mas talvez no seja to astuciosa quanto imagina.
      Chloe percebeu que estava em uma posio claramente desvantajosa. Leon parecia domin-la e inclinou-se sobre ela. Nesse momento o roupo que ele usava se abriu,
mostrando seu peito atltico coberto de plos negros e fartos.
      Chloe engoliu com dificuldade, sentindo um aperto na garganta. Sentia o sangue correndo com mais fora e o nascimento de um desejo que no conseguia mais controlar.
Havia esquecido o impacto que o corpo nu daquele homem lhe causava. Enterrou as unhas nas palmas das mos, reprimindo a vontade de toc-lo, como uma pessoa cega
que tateia algum, esperando com isso conseguir um reconhecimento. Como era possvel que ela tivesse esquecido tanto? Como podia ignorar a prpria vulnerabilidade
e as tticas que Leon empregava, a fim de derrubar todas as suas defesas?
      Ele comeou a acariciar-lhe o pescoo, excitando-a ainda mais.
      - O que h? - zombou, obrigando-a a encar-lo. - Voc ainda  a minha bela sereia.
      Leon roou levemente o dedo nos lbios de Chloe, em um gesto sensualssimo.
      - No faa isso!
      Chloe, desesperada, mal conseguia reconhecer a prpria voz. Sentimentos que no havia experimentado nos dois ltimos anos apossavam-se subitamente dela, como
se Leon estivesse abrindo uma porta secreta. O corpo de Chloe ficou curiosamente fraco, pesado, letrgico, mergulhado em sensaes que prenunciavam a exploso do
desejo. O pnico apoderou-se dela e ela tentou sentar-se, procurando afastar Leon.
      A risada dele continha ironia e, mais do que isso, triunfo. No momento em que as palmas de suas mos estabeleceram contato com os plos do peito de Leon, ela
percebeu o porqu da atitude dele.
      No conseguiu dominar a perturbao que sentia, provocada pelo odor msculo de Leon, e quando ele acariciou pela segunda vez seus lbios, eles se apartaram
instintivamente. Havia uma expresso de dor no olhar de Chloe, que sentiu-se trada por seu prprio corpo.
      - Voc acha sinceramente que conseguiria escapar de mim vindo se refugiar na sala? - murmurou Leon, roando os lbios na pele sensvel de Chloe. - Seus amantes
no devem ter a menor imaginao, se lhe ensinaram que a sala de estar  o lugar ideal para se fazer amor...
      - Leon, pare com isso!
      Naquele momento ele mordia o lbulo de sua orelha, o que s fazia excit-la ainda mais.
      A sensao de letargia aumentava e o corpo de Chloe doa, cheio de uma tenso que se desencadeara no momento em que Leon entrou na sala. Agora, que ele removia
delicadamente seu roupo, Chloe teve de enfrentar a verdade. Por mais que desprezasse aquele homem e a si mesma, ainda o desejava...
      O calor e a vergonha abateram-se sobre ela em ondas sucessivas e suas exclamaes de protesto se perderam. Os lbios de Leon colaram-se aos dela, fazendo-a
esquecer todo vestgio de razo e orgulho. Chloe apertou os lbios, em sinal de rendio e sentiu-se esmagada pelo peso do corpo de Leon. O calor que ele desprendia
transformou o cansao de Chloe em desejo ardente.
      - Ah, no! - ele murmurou, ao sentir o quanto ela comeava a se descontrolar. - Est a uma coisa que no tenho a menor inteno de fazer com pressa, mesmo
em se tratando de voc! Fiquei  espera deste momento durante dois anos e pretendo aproveitar cada segundo, cada carcia. Voc h de lembrar at o fim da vida do
momento em que concebeu meu filho, no importa quantos homens existiram ou existiro...
      Havia na voz de Leon certa aspereza, que em qualquer outro homem poderia significar uma dor amarga, mas que nele era apenas uma indicao do quanto Chloe havia
atingido seu orgulho. Os protestos dela morreram, enquanto os lbios dele deslizavam por seu pescoo e pela curva suave de seus seios.
      Uma sensao de fraqueza apossou-se de Chloe, enquanto as recordaes voltavam com notvel intensidade. Como ela podia ter imaginado que seu corpo era capaz
de resistir a Leon, posto que ele lhe havia ensinado tudo o que sabia a respeito de sexo? Os lbios e a lngua daquele homem ainda atormentavam a carne de Chloe
e as mos dela tremiam, diante do esforo que lhe custava impedi-las de deslizar sobre as costas de Leon.
      Os lbios atrevidos dele se haviam pousado sobre a linha que dividia os seios de Chloe e ela ficou tensa, em atitude de defesa, tentando no olhar aquela cabea
morena que vinha de encontro  sua pele to alva. Era, porm, tarde demais, e o corpo de Chloe punia sua loucura, fazendo-a tremer dos ps  cabea, desejosa de
ser completamente possuda por Leon.
      Ela prendeu a respirao, enquanto os lbios de Leon acariciavam delicadamente o bico ereto de seu seio. Ondas de prazer sacudiam-na inteira. Era algo que
no deveria estar sentindo, pensou, gemendo apesar de tudo.
      - Sei o quanto me deseja, Chloe - murmurou Leon. - Seu corpo  que me diz o quanto...
      Ela conseguiu apenas emitir um suspiro de submisso, que logo se transformou em soluo, no momento em que a lngua de Leon terminou de atorment-la e sua boca
fechou-se sobre o seio rijo de Chloe.
      Seus dedos enterraram-se automaticamente nos cabelos espessos de Leon e Chloe abandonou-se completamente quela febre que a percorria inteira.
      - Leon...
      Inicialmente Chloe julgou que aquela voz de mulher fosse a sua, mas quando Leon ficou tenso, cessando de explorar seu corpo, Chloe percebeu que a voz era de
Marisa.
      - Vamos, vista-se - ordenou Leon, jogando o roupo para Chloe e alcanando o dele. Furiosa consigo mesma e amargamente arrependida de sua loucura, Chloe manejava
nervosamente o cordo, sem conseguir amarr-lo. Leon, praguejando, ajudou-a, e logo em seguida a porta se abriu e Marisa os encarou.
      - Leon! - Sua expresso tornou-se dura, no momento em que enxergou Chloe. - Tive um pesadelo horrvel e fiquei com medo. Fui  sua procura, mas voc no estava
no quarto. Ento percebi que as luzes da sala estavam acesas. Achei que voc deveria estar trabalhando, mas s agora percebi em que - ela finalizou, olhando para
Chloe com o mais profundo desprezo.
      - Marisa!
      Os olhos da jovem se encheram de lgrimas e ela no fez a menor tentativa de enxug-las, deixando simplesmente que escorressem por seu rosto, at que Leon
foi at ela, tomando-a nos braos.
      - Estava to assustada, Leon, e no conseguia encontr-lo. No posso voltar para o meu quarto. Deixa-meeu ficar com voc?
      Chloe saiu correndo e conseguiu chegar a tempo ao banheiro. A ltima vez que havia ficado to enjoada fora durante a gravidez. Tremendo de raiva e nojo, tirou
o roupo e jogou-o num canto. Somente aps submeter-se a uma ducha prolongada voltou para o quarto, que estava vazio... Mas, afinal de contas, o que ela esperava?
Tinha plena certeza de que Leon nem sequer havia se dado conta de sua presena, a partir do momento em que Marisa apareceu na sala. Ser que a jovem havia adivinhado
o que estava acontecendo, ou sabia que os dois se encontravam no andar de baixo? De qualquer modo, que importncia tinha aquilo tudo?
      Ela at que deveria sentir-se grata com a interveno de Marisa, trmula ao se dar conta de que estivera a ponto de sucumbir a Leon. O fato  que ela havia
desejado que isso acontecesse!
      Desgostosa consigo mesma, deitou-se de lado, fazendo o possvel para conciliar o sono. No queria de modo algum que Leon imaginasse, no dia seguinte, que ela
havia passado uma noite de insnia e angstia, ao passo que ele...
      Ao passo que ele passaria a noite com sua amante, disse Chloe para si mesma, espantada diante da emoo amarga que se apossou dela.
      Algo lhe havia acontecido em Eos. Algo havia eliminado sua capacidade de autoproteo, tornando-a ridiculamente vulnervel a Leon. De alguma maneira tinha
de impedir que aquilo voltasse a acontecer. Ficou horrorizada ao perceber o quanto estivera exposta, a ponto de permitir que Leon fizesse amor com ela. Aquilo no
deveria voltar a acontecer, mas no dia seguinte os convidados chegariam e com alguma sorte ela partiria com eles, quando a visita chegasse ao fim. Restava-lhe apenas
encontrar seu passaporte!
      A famlia Kriticos chegou na tarde do dia seguinte. Vieram em um belssimo iate, que ancorou no pequenino porto de Eos, e no de helicptero, conforme Chloe
esperava.
      Chloe havia passado a manh fazendo o possvel para evitar Leon e Marisa. No queria que ele lhe transmitisse pelo olhar o quanto tinha conscincia de sua
fraqueza e, quanto a Marisa, tinha de reconhecer que ela lhe despertava um cime mortal. Isso, na verdade, era ridculo, pois o cime  o complemento indispensvel
do amor; sem um o outro no existe. Chloe, no entanto, no amava Leon. Ela o queria fisicamente, mas o desprezava - ou no? Claro que desprezava! Seus cimes no
passavam da herana daquele casamento, dos dias em que ainda o considerava um deus sob forma humana, e que viera  terra a fim de seduzi-la.
      Apesar de resolvida a no fazer nenhum esforo especial no sentido de causar boa impresso aos convidados de Leon, Chloe de repente se viu examinando os vestidos
que ele lhe comprara, tomada por intensa curiosidade, logo transformada em admirao. Ser que a escolha partira dele?
      Da admirao passou aos fatos e provou um vestido de duas peas em delicados tons de rosa e lils. A saia, pregueada, valorizava suas pernas longas e esguias.
O corpete moldava a curva de seus seios bem formados. Era um vestido que s poderia despertar a inveja das mulheres e a admirao dos homens. Foi exatamente esse
o efeito que causou sobre Leon, quando ela entrou na sala de visitas e ele voltava do porto, acompanhado de seus convidados.
      A sra. Kriticos era morena e magra, e seu cabelo, puxado para trs, era preso por meio de um elegante coque. A maquilagem, aplicada com habilidade, enfatizava
os olhos negros e os ossos salientes do rosto. Usava um elegante vestido negro, com toda certeza adquirido em Paris. Chloe ficou contente consigo mesma por ter cedido
ao impulso de usar um dos belos trajes comprados por Leon. Seu contentamento aumentou quando a sala de estar abriu-se subitamente e Marisa surgiu usando calas vermelhas
muito justas e uma camiseta colada ao corpo, que deixava evidente o fato de ela no estar usando suti naquele momento.
      Chloe surpreendeu o rpido olhar de desaprovao de Leon, enquanto ele a apresentava a Nikos Kriticos. J conversara com o pai do rapaz, um senhor de estatura
mdia, extremamente grego no fsico e na aparncia. Voltou-se para o rapaz com um sorriso estudado, produto de seu longo aprendizado nas passarelas dos desfiles
de modas.
      - Sra. Stephanides... - Ele gaguejou, intimidado, sem disfarar a admirao que sentia.
      Chloe ficou surpreendida. Como era possvel que Leon concebesse um casamento entre um rapaz simplrio como Nikos e Marisa, que era sculos mais velha do que
ele, em termos de experincia?
      Desconfiou que parte de seus sentimentos devia estar estampada em seu rosto, pois os dedos de Leon cerraram-se em torno de seu pulso e ele a levou em direo
ao sof, onde a sra. Kriticos se acomodara.
      - Leon, deixe-nos conversando - ordenou-lhe a bela convidada. - Voc e Alexandros tm muitos negcios a discutir. Talvez Marisa queira se juntar a ns. H
muito tempo no nos falamos. Chloe, acho que voc voltou  Grcia a tempo! Marisa precisa dos conselhos de uma mulher experiente. Com efeito, ela se veste como uma
garota que no se importa com sua virtude, no acham? Leon, voc precisa encontrar um marido para ela, antes que seja tarde demais.
      Antes que Leon pudesse responder, o sr. Kriticos aproximou-se e sua atitude demonstrava o desejo de conversar a ss com o anfitrio.
      Leon pediu licena e os dois homens se afastaram. A sra. Kriticos chamou seu filho e sugeriu-lhe que convidasse Marisa para dar uma volta pelo jardim.
      - Normalmente a famlia da garota  quem teme deix-la a ss na companhia de um jovem ousado, mas, na presente situao, desconfio que Nikos corre riscos muito
maiores do que Marisa... - comentou a sra. Kriticos, vendo os jovens que se dirigiam para o jardim, alis sem maiores entusiasmos.
      Chloe ainda tentava acostumar-se com a franqueza de sua convidada e procurava dizer qualquer coisa, sem trair seus sentimentos em relao a Marisa, quando
a sra. Kriticos insistiu para que ela a chamasse por seu nome prprio, Cristina.
      - No tenho a menor certeza de que o casamento proposto por Leon seria vantajoso para Nikos. Na minha maneira de ver ele ainda  jovem demais para isso e dcil
demais para uma jovem to mimada quanto Marisa. Meu marido, entretanto, deve imensos favores a Leon e por isso... No posso negar,  claro, que, em termos financeiros,
seria uma unio das mais recomendveis, mas h uns seis meses circulam em Atenas comentrios sobre a conduta de Marisa que so, no mnimo, preocupantes. Voc voltou
para a Grcia no tempo devido, minha cara.
      Ao notar a expresso intrigada de Chloe, Cristina Kriticos no se deu por achada.
      - Vamos, Chloe, deixe disso! Leon deve t-la prevenido e voc sabia o que estaria  sua espera! A sociedade ateniense  muito fechada e todos se freqentam.
 uma gente que adora mexericos, sobretudo quando eles dizem respeito a suas figuras mais proeminentes. Leon  um homem riqussimo, o que chega a ser alvo de comentrios
em crculos onde a riqueza  um fato natural. Quando ele voltou casado de Paris, voc se tornou objeto da inveja de todas as garotas solteiras de menos de vinte
e cinco anos e de todas as mes com mais de quarenta.  claro que nem preciso dizer o quanto repercutiu o fato de voc abandonar Leon! Todo mundo esperava que ele
se divorciasse de voc, sobretudo Marisa. Espero no estar pisando nos seus calos, querida, e, por favor, no pense que estou falando unicamente como a me que se
ressente por ver seu filho nico pressionado a casar com uma jovem que, evidentemente, no ser jamais o tipo de esposa com que sonhei para ele. Se voc, no entanto,
pretende que o seu casamento seja um sucesso, precisa ficar de olho em Marisa.
      Chloe empalideceu e a sra. Kriticos sorriu, irnica.
      - Oh, sei muito bem que Leon a considera uma criana e se dispe a satisfazer os seus menores caprichos, mas muitas vezes os homens no conseguem ver o que
se esconde por detrs de um rostinho bonito, no  mesmo? Sobretudo quando esse rosto pertence  sua parente mais prxima. Talvez eu no devesse me exprimir com
tamanha franqueza...
      Chloe respirou, aliviada. Durante um breve momento imaginou que a sra. Kriticos tinha conhecimento do verdadeiro relacionamento de Leon com Marisa. Mas por
que aquilo haveria de perturb-la? Afinal de contas, para ela seria vantajoso que a sra. Kriticos soubesse a verdade, pois isso tornaria sua partida muito mais simples.
No entanto, sua reao instintiva foi negar tudo e at mesmo mentir, se necessrio, a fim de proteger Leon. Estava perdida em seus pensamentos e no notou que a
sra. Kriticos havia feito uma pausa em seu interminvel discurso, esperando resposta a uma pergunta que acabara de formular.
      - Oh, desculpe, Cristina. Acho que me distra...
      - No tem importncia. Meu marido me contou que voc e Leon esto em Eos para passar uma segunda lua-de-mel. Alexandros me deu a entender que voc e Leon ficariam
muito agradecidos se abrevissemos a nossa visita...
      Chloe sorriu, constrangida. Lembrava-se do que Leon lhe dissera, a respeito da reao de seus amigos diante da notcia de que se haviam separado. Era seu modo
de consertar uma situao. O prximo passo, sem dvida, seria anunciar que sua esposa, meiga e obediente, estava grvida.
      -  uma pena, claro, que voc precise ter Marisa em sua companhia - prosseguiu a sra. Kriticos. - Afinal de contas, Leon deveria insistir para que ela ficasse
na companhia de sua tia Elena, pelo menos at vocs passarem uma boa temporada juntos. Pelo que conheo de Elena Theopoulos, posso afianar que ela no tolerar
os modos de Marisa. As roupas que ela usa!... - A sra. Kriticos, animada, dispunha-se a prosseguir, mas passos a preveniram de que Nikos e Marisa voltavam do jardim.
      Nenhum dos dois parecia estar especialmente contente. Nikos estava muito vermelho e Marisa mostrava-se decididamente entediada.
      - Vou pedir a Leon que me leve de volta para Atenas - disse ela em atitude de desafio. - Esta ilha me d um tdio mortal.
      Nikos ficou ainda mais ruborizado e Chloe sentiu vontade de dar uns bons tapas naquela parte da anatomia de Marisa normalmente reservada para a punio de
crianas malcriadas. A sra. Kriticos tinha razo. Marisa era, de fato, uma garota mimada, mas por detrs daquela rebelio adolescente havia uma sensualidade que
deixava Chloe espantada. Nenhuma jovem da idade de Marisa encarava o mundo com tamanho cinismo, e Chloe estremeceu ligeiramente, recordando a expresso de seu olhar,
quando ela falava do amor que sentia por Leon. Conseguia compreend-la at certo ponto. O amor por Leon era uma obsesso que ela havia acalentado sem cessar, recusando-se
terminantemente a ampliar seus horizontes. De certa maneira era de se esperar que aquilo acontecesse com uma garota tomada por emoes to intensas, mas Leon! Ele
com toda certeza devia imaginar os riscos que corria ao se entregar a seus desejos por Marisa! Afinal de contas, era sua irm! Leon poderia ser rico e poderoso,
mas aquilo no era o suficiente para que ele se colocasse acima da lei ou faltasse com o respeito a seus semelhantes.
      - Marisa, por que voc no vai se vestir para o jantar? - sugeriu Chloe. Para sua grande surpresa Marisa voltou-se para ela indignada.
      - Para que vocs possam falar mal de mim  vontade? Fofoquem quanto quiserem, pois para mim no faz a menor diferena. Se Leon afirma que Nikos e eu devemos
nos casar, esse casamento sair, por mais que a me dele se oponha.
      - Desculpe - disse Chloe, assim que Marisa se retirou. A sra. Kriticos estava imvel como uma esttua e Nikos ainda mais encabulado do que antes. - Penso que
Marisa est atravessando uma fase um tanto difcil. Creio que sente que Leon se mostra um tanto autoritrio no que se refere ao seu casamento, mas acho que isso
no  razo para ela ser to agressiva.  claro que lhe pedirei para se desculpar...
      - E ela recusar... Sinto pena de voc, minha cara. Se no tomar cuidado, essa garota acabar pegando no seu p enquanto voc estiver casada! Apresse-se e
d a Leon o filho que ele tanto deseja.
      "E assim ela no ocupar mais um lugar central das emoes de Leon, era o que a sra. Kriticos queria dizer... Havia poucas oportunidades de que isso viesse
a acontecer, refletiu Chloe com amargura, mas  claro que ela no poderia dizer a verdade.
      Vozes que se tornavam audveis anunciavam a volta de Leon e Alexandros. Para grande surpresa de Chloe, Leon aproximou-se, sentando-se no brao do sof e puxando-a
para si.
      - Onde est Marisa?
      - Foi trocar de roupa para o jantar.
      Chloe tentava manter sua voz to neutra quanto possvel, mas algo deve t-la trado, pois Leon tornou-se um tanto tenso.
      - Este reencontro de vocs  to romntico! - comentou Alexandros.
      - E desta vez no a deixarei fugir - declarou Leon, segurando Chloe com mais fora. Esta conseguia sentir seu corao batendo com mais fora. Uma grande fraqueza
a invadia e ela sentia um enorme desejo de relaxar e ser envolvida pela perturbadora masculinidade de Leon. Num esforo para dominar seus pensamentos tumultuados,
Chloe enrijeceu os msculos, na inteno de rejeitar aquela proximidade, mas foi instantaneamente punida. Leon inclinou a cabea e em seus olhos negros havia uma
estranha expresso.
      - Desta vez eu lhe darei algo que a impedir de fugir.  surpreendente como uma criana apazigua at mesmo a mais rebelde das mulheres!
      -- Bravo! Desta vez voc falou como um verdadeiro grego, meu amigo! - declarou Alexandros.
      Finalmente Chloe conseguiu fugir para seu quarto, s que j no era mais sua nica ocupante... Enquanto estava recebendo os convidados, algum, provavelmente
uma das criadas, havia transportado para l as escovas e o estojo de toalete de Leon. Um roupo de seda azul-marinho estava colocado descuidadamente sobre a cama,
ao lado de sua camisola. Chloe tentou respirar fundo, mas sentia um n na garganta. Seus olhos ficaram marejados de lgrimas.
      Lgrimas! Afinal de contas, por que chorava? Derramava lgrimas pela jovem inocente que confiara em Leon, refugiando-se em seus braos?
      A porta se abriu e ela no se moveu. Seu olhar encontrou o de Leon, no espelho da penteadeira.
      - No vou partilhar este quarto com voc, Leon - ela declarou, com uma calma que nascia do desespero. - E se me obrigar a isso, revelarei toda a verdade 
sra. Kriticos.
      Leon aproximou-se, mas dessa vez no havia sensualidade em seu corpo esguio. Chloe deu um passo atrs, tensa,  espera de que ele a agarrasse, mas isso no
aconteceu.
      - Vamos ficar no mesmo quarto, Chloe. No me sinto disposto a discutir, especialmente em se tratando de coisas fteis, e no momento desejo apenas tomar um
banho.
      Ele comeou a desabotoar a camisa e Chloe desviou rapidamente o olhar. No desejava ver as linhas musculosas daquele corpo e no queria lembrar como se sentira
ao ser possuda por ele um dia...
      - No faa isso! No admito!
      A voz irritada de Leon rompeu o silncio.
      - Nunca mais me d as costas desse jeito, Chloe, caso contrrio lhe darei bons motivos para voc sentir nojo de mim! J estou ficando cansado da sua atitude,
pois voc me encara como se eu tivesse sado do esgoto! Independentemente do que voc sente agora, no se esquea de que houve um tempo em que no conseguia esperar
enquanto no fizssemos amor!
      - No!
      O protesto de Chloe foi instintivo, mas Leon no tomou conhecimento dele, puxando-a de encontro a seu corpo.
      O odor que se desprendia dele entrou pelas narinas de Chloe e sua carne comeou a palpitar, tamanho o desejo que sentia. Tinha a impresso de que iria desmaiar
e tentou repeli-lo, mas seu gesto foi desnecessrio. Leon j a soltara, com uma expresso de desprezo, enquanto se dirigia para o banheiro e tirava a camisa.
      - Voc no somente  mentirosa, Chloe, como tambm muito covarde. Ao renegar o que aconteceu entre ns, d as costas a uma das poucas experincias verdadeiras
da vida, mas  a sua existncia que se empobrece com isso, no a minha. No seu lugar, eu tomaria a atitude oposta, a menos que queira lembrar de coisas que talvez
preferisse esquecer... mas que no esqueceu, no  mesmo, Chloe?
      Mais abalada do que queria admitir, Chloe deu as costas para ele. No queria ser trada por sua mente e recordar o passado, quando desejava aquele corpo elegante
e musculoso como o de um atleta e sua pele que tinha a tonalidade do bronze antigo. Aos poucos foi recuperando a coragem.
      Leon tentava intimid-la, mas ela estava disposta a comprar a briga!  verdade que no havia imaginado ficar no mesmo quarto que ele, mas aquilo no seria
por muito tempo! Era mais do que evidente que a sra. Kriticos no aprovava o casamento de Marisa com seu filho, o que no era de surpreender, diante do comportamento
da jovem. Deveria estar ansiosa por se retirar da ilha e Chloe estava decidida a partir em sua companhia.
      Chloe esperou cessar o barulho do chuveiro e, pegando a camisola, passou por Leon, no momento em que ele abriu a porta do banheiro.
      Ela obrigou-se a ignorar sua pele molhada, o cheiro perturbador de seu corpo e a toalha amarrada em torno da cintura, que mal ocultava o estmago musculoso
coberto de plos negros. Chloe, cerrando os punhos, evitou seu olhar e, assim que trancou a porta do banheiro, comeou a tremer...


      CAPTULO V

C
hloe constatou que o jantar tinha muito mais o carter de uma tarefa do que de um encontro agradvel. Havia ameaado denunciar Leon para a sra. Kriticos, mas sabia
que era incapaz de fazer semelhante coisa. Agora via-se condenada a sentar-se em meio a seus convidados, espiando Marisa flertar abertamente com Leon, enquanto Cristina
Kriticos olhava com ar de reprovao.
      Chloe no sabia se a jovem agia assim para forar a famlia Kriticos a desistir da proposta de casamento, mas havia uma nica palavra para descrever seu comportamento:
no passava de uma provocao!
      Ela se mostrava alternadamente grosseira e entediada quando algum, que no Leon, lhe dirigia a palavra. Usava um vestido de seda vermelha, um pouco adulto
demais, e se Leon no estivesse to obcecado por ela certamente notaria o quanto Marisa se expunha aos comentrios maledicentes. Chloe, com muita diplomacia, tentou
atenuar a falta de modos da jovem, mas ela insistiu em continuar a se portar mal.
      Leon parecia no enxergar o que acontecia. Conversava com Nikos, perguntando-lhe se gostava de trabalhar com seu pai, e Chloe entendeu por que Leon favorecia
aquele casamento. Se tinha de perder Marisa para outro homem, por que no para aquele rapaz gentil e apagado? Sentiu uma pena enorme de Nikos e ficou indignada por
ele.
      Aps o jantar foram para a sala de estar. A noite estava quente e as portas que davam para o ptio estavam abertas, para que o ar circulasse melhor. A sra.
Kriticos respirou fundo e cumprimentou Leon pela beleza e privacidade da ilha.
      -  o lugar ideal para uma lua-de-mel - comentou, sorrindo para Chloe, e Marisa ficou imediatamente tensa.
      - Vamos dar uma volta pelo jardim, Leon - pediu, dando-lhe o brao e olhando-o de uma tal maneira que o corao de Chloe ficou pequenino. Os convidados com
toda certeza haveriam de notar o que estava acontecendo!
      - Podamos nadar! - prosseguiu Marisa. - Gosto de nadar  noite, sentir a gua molhando a minha pele, no escuro...
      Mesmo contra a vontade, Chloe imaginou Marisa e Leon nadando juntos. Ele a agarrava e a beijava, como havia beijado Chloe um dia, durante aquela apaixonada
lua-de-mel... Ela estremeceu e no percebeu que Leon a encarava.
      - Voc se esquece que temos convidados, Marisa - Leon observou com delicadeza. - Talvez Nikos queira dar uma volta pelo jardim com voc.
      Chloe tinha de admitir que ele era um excelente ator. Ningum que o olhasse naquele momento teria a mais leve suspeita da verdadeira natureza de seu relacionamento
com Marisa. Esta, por sua vez, era menos hbil. Assim que Leon mencionou a possibilidade de um passeio com Nikos, sua reao foi negativa. Chloe prendeu a respirao.
Temia, mas ainda assim no sabia como evitar a cena que Marisa, com toda certeza, iria fazer. Para seu grande alvio a sra. Kriticos a socorreu.
      - Gostaria de passear pelo jardim, mesmo que Marisa no queira. Voc ir comigo, Nikos, pois seu pai est esperando um telefonema de Atenas.
      - Com efeito - disse Alexandros, desculpando-se. - Trata-se de um assunto que exigir a nossa presena em Atenas mais cedo do que imaginvamos.
      Chloe se deu conta de que o "assunto" era apenas produto da imaginao da sra. Kriticos. Sem levar em considerao o que seu marido pudesse pensar a respeito,
estava resolvida a no permitir que seu filho desposasse Marisa, e Chloe dificilmente poderia censur-la. Isso significava que ela teria de agir rapidamente. Precisaria
encontrar o passaporte e o lugar mais indicado para isso seria o escritrio de Leon, situado em um anexo, afastado do corpo principal da casa. Se Leon no estivesse
compartilhando seu quarto, ela poderia fazer uma busca no escritrio depois que todos fossem dormir. Se deixasse aquilo para a manh do dia seguinte, poderia ser
tarde demais. O que faria?
      - Voc vem conosco, Chloe? - perguntou a sra. Kriticos.
      - Iremos todos, at mesmo Alexandros - declarou Leon, antes que ela pudesse dizer qualquer coisa. - Um dos criados vir chamar Alexandros, assim que telefonarem
de Atenas. Algumas vezes acho que Eos  mais bela  noite que durante o dia. Envolvida pela escurido, ela possui todo o fascnio de uma mulher vestida de seda.
Sem o brilho ardente do sol, ficamos cegos ao encanto das trevas, to misteriosas e fascinantes. A escurido possui uma magia toda especial e a gente se v forado
a usar outros sentidos que no a viso. O tato, por exemplo...
      Chloe estremeceu, semi-hipnotizada por aquelas palavras e recordou o que sentira, quando ele tocava seu corpo, protegido pelo manto da escurido; como suas
inibies se haviam dissolvido e ela sentira-se livre para responder ao apelo ardente de seu sangue. Se ela e Leon fossem realmente amantes, se realmente quisessem
um ao outro, como seria fastidiosa a presena de outras pessoas na ilha... Ambos estariam desejosos que seus convidados partissem, a .fim de que pudessem caminhar
sozinhos pela escurido, parando ocasionalmente a fim de se beijarem e talvez at mesmo fazerem amor sobre a relva, tendo apenas as estrelas como testemunhas da
comunho celebrada entre eles e o universo.
      - Chloe, voc est bem?
      Aquela interrogao a trouxe de volta para a realidade. Todos haviam chegando  porta e subitamente ele percebeu que ali estava a desculpa para ir vasculhar
o escritrio de Leon sem ser percebida.
      -  apenas uma ligeira dor de cabea. Daqui a pouco melhoro, mas, se no se incomodarem, creio que vou me deitar durante alguns momentos.
      - Oh, mas voc deveria vir! - protestou a sra. Kriticos. - O ar fresco lhe far muito bem. Insista, Leon...
      - Ora, Leon, ser que teremos de esperar a noite inteira? Ela provavelmente est inventando esta dor de cabea - explodiu Marisa, cheia de desprezo. - No
 o que as inglesas sempre dizem quando no querem fazer amor?
      Fez-se uma pausa constrangedora e ento a sra. Kriticos manifestou-se.
      - Com efeito, Leon, essa menina precisa de uma lio...
      Chloe foi deixada em paz e Leon conduziu Marisa e seus convidados para o ptio.
      O que Marisa estava tentando, afinal? Convencer Leon a mudar de idia? No estava satisfeita ou ser que no conseguia suportar que algum desse um filho a
Leon, j que ela no podia faz-lo? Bem, Marisa no precisava se preocupar. Se Chloe conseguisse encontrar o passaporte, no momento que os Kriticos dessem sinal
de que iriam partir, ela iria na companhia deles.
      Chloe esperou durante dez minutos antes de sair rapidamente da sala de estar e dirigir-se ao escritrio.
      Nunca tinha estado l e, como no desejava arriscar-se acendendo a luz, ficou contente ao perceber que o luar iluminava o escritrio. As paredes, nuas e pintadas
de branco, contrastavam com o assoalho muito polido, recoberto por um tapete oriental de cores variadas. Uma grande mesa dominava o escritrio e uma parede inteira
achava-se tomada por estantes.
      O problema era saber por onde comear. Agora que se encontrava ali e mesmo sabendo que tinha o direito de recuperar o que lhe pertencia, sentiu uma inexplicvel
relutncia em remexer nos documentos particulares de Leon.
      Chloe acusou-se de estar agindo como uma tola e forou-se a superar suas inibies, abrindo lentamente a primeira gaveta da mesa. Estava na mais perfeita ordem
e continha fichas e documentos. Chloe examinou-os, dizendo a si mesma que no tinha a menor razo para sentir-se to culpada.
      A segunda gaveta revelou apenas um dirio e um livro de endereos. Quanto tempo mais teria, antes que eles voltassem do passeio pelo jardim? Chloe ficou ansiosa
e seu corao disparou. O suor escorria-lhe pela pele, enquanto ela fechou a gaveta e foi para o outro lado da mesa. Estava trancado! Girou nervosamente a maaneta,
sem acreditar no que acontecia e bateu com o p no cho, num gesto de impacincia.
      - Eu deveria ter imaginado!
      - Sem dvida, da mesma forma que eu imaginei que sua dor de cabea no passava de fingimento - disse Leon com a mais profunda ironia, parado ao lado da porta,
de braos cruzados. - Era isso o que voc procurava?
      Atravessou o escritrio e destrancou a gaveta com uma chave que retirou do bolso, aps o que exibiu o passaporte de Chloe.
      - Por favor, entregue-me esse documento - suplicou Chloe, com voz trmula.
      - S quando voc me der o filho que eu quero.  uma troca justa, no lhe parece? Sua liberdade e, para mim, um filho...
      - Voc quer dizer nosso filho, no  mesmo? - explodiu Chloe, indignada. - No pode me obrigar a fazer semelhante coisa, Leon! No  humano! Como espera que
eu carregue durante nove meses seu filho dentro de mim e depois o entregue calmamente a voc, desaparecendo para sempre da sua vida? At mesmo as mulheres que so
pagas para isso pensam duas vezes. O amor materno  uma emoo fortssima. No creio que...
      - Como? No cr que a sua liberdade seja pagamento suficiente? O que mais tem em mente? Dinheiro? Jias?
      - Seu cafajeste!
      As marcas impressas naquele rosto queimado de sol deixaram Chloe mais chocada do que a vtima de sua reao instintiva.
      - Ficou contente? Est se sentindo melhor, depois de me esbofetear?
      - Apenas uma coisa me faria sentir melhor: ver-me livre de voc e desta ilha.
      - E  o que acontecer, assim que me der meu filho.
      - Nunca!
      O desafio estava lanado e Chloe sentiu-se insuportavelmente tensa, com uma expresso de nervosa apreenso no olhar.
      Qualquer outro homem teria sentido pena do estado em que ela se encontrava, mas Leon apenas sorriu com cinismo, enfiando as mos por entre seus cabelos sedosos.
Seu olhar penetrante como que a hipnotizava. Subitamente beijou-a com selvageria, mal disfarando uma ira que parecia atingir o mago de Chloe. Ela se via entregue
a uma tempestade de emoes, que a impeliu a lutar contra a possessividade de Leon, o qual redobrava seus esforos.
      Finalmente, como se estivesse cansado de tanta rebeldia, puniu a atitude de desafio de Chloe com lbios que torturavam, impedindo-a completamente de se mover.
Ela, finalmente, descerrou os lbios e ele forou um beijo que no admitia obstculo algum.
      Com as mos ele afastou o tecido fino do vestido dela e apalpou-lhe os seios, acariciando a carne tenra e fresca, at que as ltimas resistncias de Chloe
foram por gua abaixo. Ela abandonou-se, trmula, perdida, entregue unicamente quela onda selvagem de emoo que crescia cada vez mais.
      - Voc me deseja, Chloe. No tente negar... Pare de dificultar as coisas para si mesma. No  vergonha alguma voc sentir o que sente... Ns dois nos queremos...
      Chloe teve um momento de sensatez e, tomada por uma energia sbita, repeliu Leon.
      - J no sou mais uma adolescente romntica, Leon. Esses argumentos fceis talvez tivessem funcionado um dia, mas agora no servem mais. O desejo talvez seja
suficiente para voc, mas est longe de significar alguma coisa para mim!
      Deu-lhe as costas, disposta a se retirar, mas ele a impediu, obrigando-a a encar-lo.
      - Nossos convidados voltaram do passeio. Pelo visto, Marisa parece no estar se dando muito bem com Nikos.
      - E isso o surpreende? A sra. Kriticos est muito preocupada com os dois, como  natural.
      - E voc,  claro, nem sequer tentou convenc-la do contrrio... Como as pessoas de seu sexo gostam de magoar a si mesmas... Sei que voc e Marisa tiveram
muitas diferenas no passado, mas...
      - Mas isso no tem nada a ver com o que eu sinto a respeito de Marisa. Leon, como  que voc pode desejar semelhante casamento, quando o tempo todo... o tempo
todo... - Era estranho, mas ela no conseguia pr em palavras o relacionamento de Leon com sua irm. - Bem, voc sabe o que eu quero dizer. Sinto tanta pena do pobre
Nikos!
      - Ah, vocs esto a! - A sra. Kriticos surgiu diante deles, toda amvel. - Devia ter vindo conosco, Chloe. Sem voc, Leon no conseguiu apreciar muito o luar.
      Chloe fez o possvel para rir, juntamente com os outros, absurdamente consciente da mo de Leon em seu pescoo. Sentiu um n na garganta e seus olhos ardiam.
      - Com licena, mas vou para a cama - ela murmurou, desvencilhando-se de Leon. No caminho cruzou com Marisa, que lhe lanou um olhar irnico e agressivo.
      Foi um verdadeiro alvio chegar ao quarto, que, alis, no era mais seu. A partir daquela noite o dividiria, juntamente com a cama, e Leon seria o outro ocupante.
      No conseguia conciliar o sono e nem fazer qualquer coisa que desse a Leon a oportunidade de sentir que ela no era receptiva  sua solicitao. Ainda que
seu corpo desejasse o repouso, sua mente a mantinha desperta.
      Eram duas horas da madrugada quando ela ouviu os passos de Leon se aproximando. Ele entrou no quarto sem v-la, e, tirando o palet com impacincia, jogou-o
descuidadamente sobre a cama. De repente percebeu que Chloe no estava deitada, mas sentada em uma cadeira.
      - Pelo amor de Deus, Chloe! - ele protestou, ao v-la. - Chega de discusses, pelo menos hoje  noite. Alexandros acaba de me informar que a mulher dele no
acha que Marisa seria uma boa esposa para Nikos. Foi um dilogo extremamente constrangedor para ns dois.
      Chloe sentiu uma certa pena de Leon, mas disfarou o mais que pde.
      - Ainda bem. Mesmo que os Kriticos aceitassem a unio, voc jamais conseguiria convencer Marisa.
      - Marisa no passa de uma criana e est sob minha tutela. Far o que eu lhe disser.
      - Mesmo que isso signifique ela casar com algum a quem no ama?
      - A est um assunto que voc domina com muita competncia... Ainda no aprendeu, minha linda esposa, que jamais conseguiremos passar para os outros os resultados
das nossas experincias amargas?
      - Voc est bbado! - acusou Chloe, sentindo subitamente o hlito forte de Leon.
      - Estive bebendo - ele corrigiu, desabotoando a camisa de seda azul. - No estou bbado, porm. Existe uma diferena. Pelo amor de Deus, no me olhe desse
jeito. At parece que tem o diabo pela frente! Sou um homem como qualquer outro, com as mesmas necessidades e desejos. Gosto de sentir o calor do sol no meu corpo
e a carcia do mar; gosto de comer, beber e fazer amor. Quero segurar meu filho nos meus braos...
      De repente as paredes daquele quarto pareciam sufoc-la e Chloe no conseguia respirar mais.
      - Vou... vou dar um passeio... Preciso de um pouco de ar fresco. Eu...
      Estava completamente despreparada para a selvageria com que Leon apossou-se dela. Seus olhos cinza fuzilavam e, naquele momento, ele era a prpria imagem da
fria.
      - O que voc est tentando me dizer? Que no suporta sequer respirar o mesmo ar que eu, pois est contaminado? Basta! Voc  minha mulher, Chloe, e haver
de me dar um filho. Se eu quiser possu-la, estarei nos meus direitos, de acordo com a lei grega!
      - Mas o que o est impedindo? - retrucou Chloe, esquecendo seu propsito de no despertar a clera daquele homem. - Por que hesita em me possuir contra a minha
vontade, quando praticamente me raptou, obrigando-me a viver nesta ilha a seu lado? Ou ser que o seu orgulho fica ferido, quando voc pensa que  preciso forar
uma mulher, a fim de que ela aceite as suas carcias?  isso que est acontecendo, Leon? Receia que eu ponha um ponto final na sua vaidade, que o levava a acreditar
que eu me entregaria facilmente a voc?
      - Voc j se entregou antes e se mostrou plena de desejo... As coisas entre ns poderiam voltar a ser como antes, Chloe...
      Leon estendeu o brao e tocou-a, deixando-a toda arrepiada.
      - Tire a mo de mim!
      - Sua hipcrita! Voc me quis um dia e eu posso obrig-la a me querer novamente.
      - Fisicamente talvez - concordou Chloe, admirada consigo mesma por conseguir manter o controle exterior. - No entanto, entre duas pessoas deve existir muito
mais do que uma simples atrao fsica. Leon, o que voc est fazendo? - indagou, ao ver que ele abotoava a camisa.
      - Agora quem est precisando de ar fresco sou eu - disse ele com ironia. - Chega de pieguice. Tudo isso me deixa profundamente entediado. Durma. No precisa
esperar por mim.
      Para onde ele ia?, perguntou-se Chloe, enquanto a porta se fechava. Procuraria Marisa?
      Leon s voltou de manhzinha, saindo novamente quando o sol penetrou atravs das janelas e despertou Chloe. Apenas o travesseiro amarrotado a seu lado provava
que ela no havia dormido sozinha. Lembrou-se de outras manhs, quando acordava e ele estava a seu lado. Um suspiro aflorou a seus lbios, seguido por uma intensa
sensao de perda. Chloe procurou se dominar e, aps o banho, vestiu-se.
      Gina comunicou-lhe que o caf da manh estava sendo servido no ptio e Chloe tomava a segunda xcara de caf quando a famlia Kriticos chegou.
      - No sei se  o ar martimo ou a ausncia de trfego, mas eu dormi excepcionalmente bem - comentou a sra. Kriticos. - Que sorte voc tem de morar nesta ilha
to bela, minha querida!
      - Que sorte ela tem de possuir um marido suficientemente rico para se permitir tamanho luxo! - disse Alexandros, brincando.
      Pelo visto, todos haviam chegado a um acordo e os Kriticos permaneceriam em Eos por mais um dia. Chloe desconfiou que aquilo destinava-se unicamente a manter
as aparncias. Marisa no apareceu e Nikos ficou muito mais animado ao constatar sua ausncia. Antes que os Kriticos partissem, Chloe precisava apoderar-se de seu
passaporte e subir a bordo do iate deles, sem que Leon percebesse o que ela estava fazendo.
      Aps o caf, Nikos, timidamente, perguntou-lhe se ela sabia onde estavam localizadas as melhores praias da ilha. Ele preferia banhar-se no mar a usar a piscina.
Como a sra. Kriticos no se mostrasse muito animada e como o sr. Kriticos precisava discutir alguns assuntos com Leon, Chloe ofereceu-se para acompanhar o rapaz
at a praia.
      A governanta, Katina, deu-lhes instrues de como encontrar uma praia pequena e escondida e eles partiram logo aps o caf no jipe de Leon, levando uma cesta
com sanduches e bebidas.
      - Nikos, no se esquea de que vamos embora no fim da tarde! - avisou a sra. Kriticos na hora da partida.
      Chloe no havia estado com Leon ou Marisa desde que se levantara. Ser que ele comunicara  irm que no a foraria a se casar contra sua vontade?
      A praia estava situada do outro lado da ilha, rodeada por rochedos. A fim de chegar at ela tiveram de estacionar o jipe e descer por um caminho estreito aberto
na rocha. Nikos ia na frente, parando o tempo todo para ajudar Chloe. Carregava o cesto com uma das mos e as toalhas com a outra e ela ficou sensibilizada com a
gentileza do rapaz.
      - No sou to velha e decrpita a ponto de no poder descer alguns degraus - disse ela, brincando.
      Nikos j havia chegado  praia e a ajudava a descer os ltimos degraus. Seus grandes olhos castanhos estavam cheios de admirao, enquanto examinava as curvas
do corpo de Chloe.
      - Nem diga semelhante coisa! A senhora no  absolutamente velha.  bonita... muito bonita... Leon  um homem de sorte.
      - Pare de me lisonjear! Afinal de contas, viemos aqui para nadar!
      Chloe no sentiu a menor inibio em tirar o short e a camiseta diante de Nikos. Usava um biquni e entrou no mar. A gua estava uma delcia e ela chamou Nikos
que, com algumas braadas, estava a seu lado.
      - Voc tem razo, Nikos! Isto aqui est muito, mas muito melhor do que a piscina!
      Chloe flutuou de costas, enquanto Nikos nadava at uma pedra, a alguns metros de distncia. Ela fechou os olhos e deixou seu corpo balouar, abandonando-se
inteiramente  preguia.
      Subitamente algumas gotas de gua caram sobre o rosto de Chloe e ela abriu os olhos. Nikos era o autor da brincadeira e sorria maliciosamente.
      - Est na hora do almoo - informou Chloe. - Vamos ver quem chega primeiro  praia?
      Mesmo com a vantagem que Nikos lhe deu, ela sentiu dificuldades em acompanh-lo. O rapaz nadava muito bem, exatamente como Leon. Leon! Era como se uma nuvem
tivesse ocultado o Sol e ela lembrou-se de seu sombrio destino.
      Enquanto almoavam fez perguntas discretas a Nikos, relativas ao iate. Tinha a esperana de descobrir o melhor lugar para se esconder, at que estivessem bem
distantes da ilha.
      Havia uma meia dzia de cabinas, quatro na proa e duas na popa. Estas ltimas eram as mais confortveis, mas estavam sendo redecoradas e ningum as usava.
      Enquanto conversavam Chloe no parava de pensar. Se conseguisse apoderar-se do passaporte e descobrir um jeito de introduzir-se no iate sem ser vista... Havia
desistido do pretexto de ir fazer compras em Atenas, pois tinha certeza de que Leon encontraria meios de impedi-la de embarcar. Era perfeitamente possvel esconder-se
em uma das cabinas at chegarem a Atenas, mas ainda sentia escrpulos em envolver outras pessoas em seus assuntos ou em confiar a algum, por mais simptico que
fosse, os verdadeiros motivos que haviam levado Leon a conduzi-la at a ilha.
      Aps o almoo Chloe tomou um pouco de sol, enquanto Nikos explorava a praia. Mais tarde voltaram a nadar juntos, secando-se ao sol antes de regressar. O rapaz
era um companheiro agradvel, pensou Chloe, enquanto ele sugeria que ela talvez quisesse ficar sozinha na praia, a fim de trocar de roupa.
      - O meu biquni secou. Colocarei o short e a camiseta por cima.
      Chloe levantou-se e nesse momento pisou numa concha machucando o p, o que a fez perder o equilbrio. Estendeu a mo instintivamente para Nikos, que lhe deu
apoio. Ele ajoelhou-se para examinar o corte e nenhuma dos dois percebeu aquela figura alta e atltica que os espiava.
      - Ainda bem que o corte foi superficial! - exclamou Chloe, tentando caminhar e se desvencilhando de Nikos - Eu devia ter tomado mais cuidado.
      Garantiu a Nikos que estava muito bem e seguiu-o at o jipe. No havia ningum no ptio quando chegaram  casa. Todos se encontravam na sala de estar, tomando
drinques, informou uma criada.
      Chloe estava debaixo do chuveiro quando ouviu a porta do quarto se abrir. Apanhou instintivamente a toalha, mas deteve-se assim que viu Leon aproximar-se dela,
com a raiva estampada no rosto.
      - O que est tentando fazer? Lavar as carcias do seu amante? Eu vi os dois. No perca tempo mentindo para mim. No  de admirar que voc no queira que Marisa
se case com ele!
      - Leon, voc...
      A toalha caiu e ela inclinou-se para apanh-la. Ficou profundamente ruborizada ao notar que o olhar de Leon percorria sensualmente seu corpo, demorando-se
nos seios e no ventre liso e alvo.
      - Voc tem muita sorte. Os meus deveres para com meus hspedes me impedem de puni-la, como um grego pune sua mulher diante de um comportamento como o seu.
Lembre-se de que hoje  noite os nossos convidados partiro e ficaremos a ss.
      Leon disse aquilo com tamanho contentamento que Chloe s conseguiu comear a se vestir decorridos alguns segundos depois que ele saiu do quarto.
      Chloe estava pintando os olhos quando Marisa entrou, sem ao menos ter a considerao de bater na porta.
      - Quero falar com Leon - disse com a insolncia de sempre. - Onde  que ele est?
      - No sei - replicou Chloe com absoluta calma, recusando-se a se deixar ofender pelo comportamento grosseiro da jovem.
      - Como  que voc pode ficar aqui, sabendo que ele no a quer? A nica coisa que ele deseja  a criana que gerar em voc.
      - E o que posso fazer? Por um lado, preciso do meu passaporte, e por outro...
      Marisa impediu-a de prosseguir.
      - Quer dizer que ir embora, se tiver o passaporte nas mos? Mas como?
      - Darei um jeito.
      Chloe desconfiava demais de Marisa para lhe contar a verdade, a despeito de saber que ela desejava ardentemente sua partida. Achava que a garota era perfeitamente
capaz de comunicar a Leon seus planos.
      - Voc iria embora mesmo?
      - Imediatamente!
      Marisa caminhou para a porta com ar decidido.
      - O que est fazendo?
      - Vou pegar o seu passaporte. Deve estar trancado na gaveta da escrivaninha de Leon e eu sei onde ele guarda a duplicata da chave. Se eu o der a voc, promete
que partir e nunca mais voltar?
      Chloe concordou. Pobre Marisa. De certa maneira ainda era uma criana, cuja adolescncia fora tragicamente prejudicada por seu relacionamento com Leon, to
maduro e, de vez em quando, to infantil.
      - Eu lhe entregarei o passaporte aps o jantar. Encontre-se comigo na beira da piscina.
      Durante o jantar Marisa mostrava-se to diferente da criatura entediada da vspera que Chloe no se surpreendeu nem um pouco ao notar que Leon a observava.
O que ser que aquele homem enrgico pensava? Ele era suficientemente voluntarioso para obrigar a garota que o amava e a quem amava, a contrair um casamento indesejvel,
apenas para poder ter um filho com a mulher a quem desposara, com o mero intuito de esconder aquela relao incestuosa...
      - Voc precisa nos visitar em Atenas, Chloe - dizia a sra. Kriticos. - Iremos fazer compras juntas. Leon, d um jeito. Leve-a com voc na prxima vez que for
a negcios  capital.
      - S irei a Atenas dentro de uns trs meses e at l minha mulher talvez no se sinta em condies de viajar por mar ou ar...
      - Mas sempre vamos a Atenas no outono! - reclamou Marisa.
      - Pois este ano ser uma exceo. Claro que se quiser ir, Marisa, posso providenciar para voc ficar com algum amigo nosso.
      Ser que aquele homem no tinha piedade ou compaixo?, indagou-se Chloe, olhando o rosto plido de Marisa. Ser que ele no percebia o efeito que suas palavras
provocavam sobre ela?
      A sra. Kriticos sem dvida percebeu o abatimento de Marisa, pois quando se viu a ss com Chloe no pde deixar de fazer uma confidncia.
      - Minha cara, isso no me diz absolutamente respeito, mas Marisa se encontra por demais envolvida com Leon, no plano emocional. Se quer o meu conselho, o que
ela precisa  passar alguns meses em Atenas, sob o controle rgido de alguma senhora responsvel.
      Os Kriticos partiriam s dez e haviam jantado mais cedo, a fim de no atrasarem o embarque. Chloe devia encontrar-se com Marisa s nove e quando se aproximava
do ponto de encontro receou que ela no viesse. Esperou durante dez minutos e estava a ponto de desistir quando a jovem apareceu subitamente a seu lado, com o passaporte
na mo.
      - Aqui est - disse, entregando-o a Chloe. - Eu cumpri a minha parte do acordo e agora cabe a voc fazer o mesmo. Caso contrrio se arrepender de ter nascido!
Leon ama a mim e no a voc. Entendeu?
      Antes que Chloe pudesse dizer qualquer coisa, ela desapareceu na escurido.
      Chloe abaixou os olhos lentamente. Sim, era seu passaporte! Agora s lhe restava ir at o iate e esconder-se, sem que ningum notasse sua ausncia. Era uma
tarefa e tanto, mas menos rdua do que aquela que j cumprira!


      CAPTULO VI

N
o fim tudo resultou imensamente fcil.
      A sra. Kriticos insistiu para que no os acompanhassem at o iate. Soprava um vento frio e, alm disso, ela detestava despedidas. Enquanto Leon os levava de
carro, juntamente com a bagagem, Chloe embrenhou-se no bosque, tomando o atalho que evitava a nica estrada da ilha, chegando ao ancoradouro dentro de pouco tempo.
      No havia ningum no convs e, apesar dos sinais de atividade a bordo, ningum pareceu notar Chloe enquanto ela se esgueirava por entre as trevas e subia no
iate.
      Era difcil caminhar no escuro e subitamente ela ouviu passos que se aproximavam. Abriu a primeira porta que encontrou e escondeu-se.
      A cabina estava mergulhada na mais completa obscuridade e Chloe no tinha a menor idia do que havia  sua volta. Sentiu sob os ps a poderosa vibrao do
motor. Os segundos se arrastavam e o medo mal a deixava respirar. Para seu grande alvio, o barulho de passos morreu. Talvez os Kriticos s descessem aps a partida
do iate.
      Agora que tinha tempo para pensar com clareza, Chloe reconheceu que se expusera a um grande perigo. O rudo do motor acelerou-se. O iate partia, singrando
as guas do mar Egeu. O silncio era tamanho que Chloe conseguia ouvir o barulho das guas batendo no casco do iate.
      Tateando, acabou descobrindo uma cama e sentou-se na beira dela. Finalmente havia conseguido! Escapara de Leon e da ilha. Mas ento o que acontecia para estar
sentindo aquela espcie de desapontamento?
      A porta da cabina se abriu subitamente e a luz feriu seus olhos, j quase acostumados  escurido. Chloe procurou se controlar, pronta para se desculpar e
oferecer explicaes. Decidiu contar que havia tido uma discusso com Leon e estava to concentrada, ensaiando as palavras, que quase chocou-se com aquele homem
alto parado na porta.
      - Leon!
      - Surpreendida?
      Ele deu um passo adiante, fechando a porta e acendendo a lmpada. Uma luz suave iluminou a cabina, decorada com um luxo que superava tudo o que Chloe vira
at ento. A despeito do choque, ainda teve suficiente presena de esprito para notar as cortinas de seda em tom pssego, que combinavam com o belo acolchoado sobre
a cama e o mobilirio muito elegante. Um tapete em tom de pssego mais escuro cobria o cho e do outro lado da cabina havia uma porta que, sem dvida, dava para
o banheiro.
      -  a cabina principal do iate. Gosta dela? - indagou Leon, rompendo o silncio.
      - O que voc est fazendo aqui? - perguntou Chloe, sem tomar conhecimento da indagao. Ele era a ltima pessoa a quem ela gostaria de ver, e seus olhos dirigiram-se
desesperadamente para a porta, na esperana de que o sr. ou a sra. Kriticos viessem socorr-la.
      - Eu poderia lhe fazer essa pergunta, mas seria perfeitamente intil, pois ambos sabemos o que voc est fazendo aqui... Pretendia escapar de mim, no  mesmo?
Tentou aproveitar-se da partida dos Kriticos a fim de deixar Eos.
      - E consegui - respondeu Chloe corajosamente, medindo com o olhar a distncia que a separava da porta. Acaso Leon pretendia fazer uma cena diante de seus amigos?
      - Conseguiu mesmo?
      Aquelas palavras, ditas com suavidade, tiveram o efeito de uma ducha de gua fria.
      - Claro que sim! E se voc no me deixar desembarcar em Atenas, contarei tudo a seus amigos.
      - Tudo? Contar, por exemplo, como forou a minha escrivaninha, aps tentar convencer Marisa a faz-lo por voc, apoderando-se em seguida do passaporte? Voc
lhes contar isso, Chloe? - Antes que ela pudesse corrigi-lo, ele prosseguiu. - Sabe, minha querida esposa, voc foi esperta, mas no o suficiente. Alexandros deixou
alguns papis no meu escritrio antes do jantar e quando fui apanh-los para ele descobri que haviam forado a minha escrivaninha. Se isso no fosse o bastante para
incrimin-la, Marisa foi  minha procura, pouco antes de eu vir para c, a fim de confessar que voc lhe havia pedido para dar uma busca na minha escrivaninha, pensando
que eu suspeitaria menos dela que de voc. No momento em que percebi que voc se havia apoderado do passaporte, compreendi o que faria. Meu prprio iate, o Nemesis,
estava ancorado na baa, do outro lado do ancoradouro. Ordenei que o trouxessem at aqui, quando os nossos convidados chegaram, e foi apenas uma questo de trocar
de barco.
      - Seu iate... - Chloe olhou para Leon, sem acreditar no que estava acontecendo. - Quer dizer que eu...
      - Sim, minha cara Chloe. Talvez tenha escapado de Eos, mas saiba que apenas trocou uma priso pela outra. O Nemesis me pertence e voc e eu somos os nicos
passageiros a bordo... Convenha que  um lugar dos mais romnticos e ideal para levarmos adiante os nossos... negcios!
      - Deixe-me passar!
      Chloe abriu a porta, mas no conseguiu ir muito longe, pois foi impedida por braos fortes que a imobilizaram.
      - Para onde pretende ir? Ou pretende jogar-se no mar, no mais puro estilo teatral?
      - At mesmo isso seria prefervel a ser forada a suport-lo! - declarou Chloe,  beira da histeria. - No quero ficar aqui com voc. Eu...
      - Basta!
      Aquela palavra brusca silenciou os protestos de Chloe e ele, sem muita gentileza, obrigou-a a sentar-se na cama, indicando que sua pacincia estava a ponto
de se esgotar.
      - Estou pedindo a voc apenas aquilo a que tenho direito, Chloe. Se voc no tivesse sido to tola, nada disso teria sido necessrio.
      - Em outras palavras, se Marisa no tivesse me empurrado... Oh, desculpe! Se eu no tivesse "cado" e perdido a criana, agora estaria livre de voc. Como
pode ser to premeditado, to cnico? Acaso imagina como uma pessoa se sente, quando  tratada simplesmente como uma mquina de reproduzir?
      - No tenho a menor idia, mas tenho alguma experincia de como  tratado apenas como um cifro, de casar com algum que viu em mim apenas um investimento
financeiro, e de ser abandonado por minha mulher quando ela j estava saciada. Por que no se divorciou de mim? Ou ser que d para adivinhar? Quanto mais durar
o casamento, mesmo que seja apenas no papel, maior a penso que eu teria de pagar, no  assim?
      Os olhos de Chloe se encheram de lgrimas e ela deu as costas a Leon. Por que no havia se divorciado dele? No fundo sabia perfeitamente a resposta. Como uma
tola, jamais havia deixado de am-lo, de esperar que um dia...
      - Est tentando insinuar que me casei com voc por dinheiro?
      - E acaso voc procura insinuar que no? Vamos deixar de brincar de esconde-esconde, Chloe. Quero deixar um ponto bem esclarecido. Eu insisto sempre em obter
algo em troca do dinheiro que aplico. At agora voc tem demonstrado ser um mau investimento e resolvi fazer o que qualquer homem de negcios faria nessas circunstncias.
      - Quer dizer que ir se divorciar de mim?
      Quanto tempo ela havia levado para descobrir que ainda o amava! Aquela situao chegava a parecer uma verdadeira comdia!
      - Mais tarde, sim. Primeiro pretendo obter todos os lucros que o meu investimento possa me proporcionar... Quanto a voc, imagine que, por meio dessa transao,
ter uma velhice tranqila... E se isso no for suficiente, tente recordar o que lhe passava pela cabea quando nos casamos e voc recebeu as minhas provas de...
amor com tocantes demonstraes de pseudo-entusiasmo. Tome muito cuidado, Chloe. A situao pode ficar bastante difcil para voc.
      - Recuso-me a fazer o que voc deseja.
      - Sua opinio no ser levada em conta.
      Aquela frase brusca deu a Chloe toda a dimenso da situao em que se encontrava. Para todos os efeitos estava a ss com Leon no iate, pois sabia que nenhum
membro da tripulao levantaria um dedo a fim de ajud-la, se recorresse a eles.
      - Voc no protesta? Bem, no est moralmente capacitada para isso, no  mesmo? Vamos ser honestos um com o outro. Facilitarei a situao para voc. Marisa
me comunicou o que voc disse a ela...
      Chloe limitou-se a olh-lo. Marisa no havia perdido tempo! - pensou com amargura. Primeiro contou a Leon que Chloe havia tentando convenc-la a abrir sua
escrivaninha e agora... Afinal de contas, quais teriam sido suas palavras? Chloe logo ficou sabendo.
      --- Voc lhe disse que havia casado comigo unicamente por causa da minha fortuna, no  mesmo? Disse tambm que ter um filho meu jamais havia entrado em seus
planos e jamais entraria. Bem, voc sabe o que se costuma dizer a respeito de "planos", no ?
      Ele se exprimia com suavidade, mas havia em sua voz uma ameaa velada que deixou Chloe arrepiada de medo. Queria negar suas acusaes, mas a lngua parecia
ter ficado paralisada e ela ficou imvel como uma esttua, enquanto Leon avanava em sua direo.
      - Bem, se vamos colocar o nosso relacionamento em termos de quem  dono do que, lembro-me que fui eu quem lhe deu esse vestido... De acordo com as suas regras,
isso me d o direito de fazer com ele o que bem entender... incluindo isso...
      Chloe, atnita, viu-o rasgar o vestido e fechou os olhos, incapaz de suportar a expresso de quase dio estampada na fisionomia de Leon, enquanto ele contemplava
seu corpo esguio.
      - No sei o que, em voc, provoca mais dio em mim, Chloe - ele murmurou, enquanto a obrigava a deitar-se na cama -, se  o fato de matar meu filho ou destruir
a f que eu tinha na minha capacidade de julgamento. Achava que voc era uma garota tmida e inocente, quando na realidade... Eu devia saber com quem tratava. Vivendo
como vivia no mundo da alta moda, ainda se mantinha virgem, e eu devia ter imaginado que no era por uma questo de inocncia, mas de astcia. Sabia perfeitamente
o que semelhante ddiva significaria para um homem com dinheiro suficiente para pagar por ela. Um homem como eu, por exemplo...
      - No!
      Chloe estava assustadoramente plida e sentia como se um punhal penetrasse em seu corao. At mesmo a dor que experimentara ao saber que Leon amava sua meia-irm
no se comparava com aquele sofrimento.
      - Sim! - Leon inclinou-se sobre ela e seus olhos tinham um brilho demonaco. - Sim, sim, sim. Reconhea que estou com a razo, Chloe!
      - No  verdade!
      Para seu grande horror Chloe percebeu que as lgrimas invadiam seus olhos, queimando como cido, antes de escorrerem rosto abaixo e molharem as mos de Leon,
que no a deixava desvencilhar-se!
      - Voc  uma mentirosa, Chloe! Sua me nunca a preveniu de que voc poderia ser punida por dizer mentiras?
      A punio vinha dele, naquele momento, pois Leon se ps a beij-la com refinada sensualidade, roando os lbios sobre o pescoo e os seios.
      - No estou mentindo!
      Aquela atitude de desafio mereceu resposta imediata.
      - Deixe disso, vamos! No  preciso mais continuar fingindo! Agora ambos sabemos a verdade!  uma pena que eu no tenha percebido antes, mas mesmo assim acho
que no  tarde demais. Ainda temos esta noite para dar um jeito na situao...
      - Leon...
      - No perca seu tempo suplicando... Existe uma palavra para gente que se apodera de dinheiro usando falsos pretextos. So trapaceiros, e eu no gosto de ser
vtima de trapaas, ouviu, Chloe?
      Ela ficou assustada pela primeira vez, sentindo todo o ressentimento que se acumulava em Leon e que se revelava atravs da presso de seus lbios, que se colaram
aos dela, e de seus punhos de ao, que no a largavam. Chloe tentou livrar-se da insistncia daqueles lbios, mas Leon era por demais forte. Mesmo ele demonstrando
raiva e desprezo, ela, para sua grande surpresa, sentiu o desejo apoderar-se daquele homem. A fria que se apossara de Leon havia atuado como um poderoso afrodisaco,
de cujos efeitos ela no estava inteiramente livre.
      Tudo aquilo era degradante, pensou Chloe, enterrando as unhas nas palmas das mos. Tentou no sucumbir  fora que ele estava empregando, a fim de obrig-la
a abrir os lbios que ela havia cerrado, em atitude de desafio. No entanto, a despeito da lgica e do bom senso, uma parte dela excitava-se com aquele toque e seu
corpo reagia, tornando impossvel qualquer esforo no sentido de rejeit-lo inteiramente. O odor daquele corpo msculo invadia suas narinas e a presso do corpo
de Leon, forando o seu, tornava Chloe consciente de um desejo que aumentava cada vez mais. Por meio de um gesto rpido, Leon desabotoou seu suti e ps-se a acariciar
seus seios, provocando-a e despertando a reao calculada. Chloe gemeu, quando, ao afastar involuntariamente os lbios, Leon beijou-a com tamanha brutalidade que
sua boca comeou a sangrar.
      -Leon!
      O protesto era dirigido contra os dois. Na verdade, Chloe temia ser consumida pela paixo que ameaava apoderar-se dela. Tentou convencer-se de que a paixo,
em si, era algo degradante, sem significado, menor, mas as emoes que ela havia contido durante tanto tempo irromperam atravs das barreiras de seus princpios.
De repente esquecia-se por que Leon fazia amor com ela naquele momento e recordou unicamente os dias dourados de sua lua-de-mel.
      - Leon!
      Mais uma onda de desejo a fez tremer e Chloe teve ento plena conscincia de que o medo que se aninhara no mais ntimo de seu ser, desde que Leon voltara a
entrar em sua vida, significava apenas uma coisa: ela ainda o amava!
      A partir desse momento, todos os impulsos traioeiros que ela havia controlado com tamanha coragem entraram em verdadeira rebelio. Seus gemidos de protesto
de nada adiantavam e os beijos de Leon continuavam a atorment-la.
      Chloe abandonou-se a ele instintivamente, com os olhos fechados e a cabea jogada para trs, numa atitude de abandono. Acariciou suas costas e agarrou o tufo
de cabelos negros que cobria seu pescoo. Nem mesmo o fato de ele afastar-se subitamente dela, alm de sua visvel tenso, conseguiram atenuar a fora daquela onda
de paixo que a arrastava. Somente a firmeza com que Leon se exprimia conseguiu fazer com que Chloe se dominasse, saindo do clima de iluso em que se envolvera.
Ele, segurando sua cabea, forou-a a contemplar sua imagem no espelho prximo a cama.
      - Olhe bem, Chloe, e reconhea que voc no passa de uma hipcrita. Voc disse a Marisa que casou comigo unicamente pelo meu dinheiro e minha posio. Eu no
a atraio fisicamente e jamais a atra, segundo voc. Mas agora encare-se e repita essas palavras, se  que consegue!
      Chloe sentiu-se mortificada e tentou desviar o olhar do espelho, mas sem conseguir. Estava visivelmente excitada, com os seios duros, os lbios inchados, o
cabelo em desordem, tudo indicando que ela estava disposta a se entregar quele homem.
      - Por favor...
      Leon, aps testemunhar sua humilhao, parecia disposto a levar a vingana at o fim.
      - Por favor o qu? Quer acaso que a deixe em paz? Quer que no a force a aceitar a verdade? Quer que leve esta noite at suas ltimas conseqncias e a possua
completamente, mesmo que, durante aqueles meses tediosos do nosso casamento, eu no tenha conseguido, de acordo com as suas palavras, despertar o menor desejo em
voc?
      Chloe cerrou os olhos, para no ver diante de si o rosto indignado de Leon. Estava enojada com o que Marisa havia feito. E, no entanto ele no a havia injuriado
muito mais do que ela supostamente o injuriara? Leon se queixava de que ela o tinha desposado por dinheiro, mas, afinal de contas, casara-se com ela por razes ainda
mais desprezveis. Ainda assim, no queria que ela protestasse...
 claro que era necessrio levar em conta seu orgulho de macho, que o levava a exigir amor dela, mesmo no estando preparado para retribuir. E ainda ousava
cham-la de hipcrita!
      - Oh, no se preocupe - prosseguiu Leon, naquele mesmo tom odioso. - Pretendo possu-la inteiramente, Chloe, mas primeiro quero faz-la ciente de que, independentemente
do que sinta por mim no plano mental, fisicamente voc me deseja. No  verdade?
      - Da mesma forma que voc deseja a mim!
      - Exato. E como te desejo neste momento! Cristos, Chloe!
      A pele de Chloe ficou molhada de suor e seu corpo tremia sem parar. Leon se ps a acarici-la e, aos poucos, o dio que ela sentia foi se transformando num
ardor incontrolvel, que a levou a querer provar com os lbios os prazeres da carne daquele homem. A fivela do cinto de Leon impedia que Chloe aprofundasse suas
carcias e ela fez um gesto de impacincia. Ele facilitou sua tarefa, tirando a cala e eliminando aquela barreira indesejvel, at que finalmente nada mais se interpunha
entre o calor de seus corpos. A mo de Leon apoiou-se com ternura sobre o ventre de Chloe e deslizou por seu corpo. Os rijos msculos de seu estmago se contraram,
quando os dedos de Chloe seguiram a trilha formada por seus plos negros. O desejo explodiu entre ambos, consumindo todo dio e toda raiva, dando lugar  chama pura
e brilhante da posse.
      O passado e o futuro haviam deixado de existir. Somente o presente se impunha, alm dos clamores do sexo, mantidos sob controle durante um tempo excessivo.
Era como uma sinfonia executada por instrumentos perfeitamente afinados e sintonizados um com o outro. Chloe, que se sentia flutuar em um ponto qualquer situado
entre a terra e o paraso, sentiu que a vida no poderia encerrar prazer maior, depois que ela e Leon chegaram  culminao de seu desejo.
      Reflexos da gua danavam no teto e Chloe despertou de um sono profundo, despovoado de sonhos. Voltou a cabea e viu a xcara de ch na mesinha ao lado da
cama. De repente percebeu o que estava acontecendo. Leon estava deitado a seu lado, de bruos, e ainda dormia. A dor a invadiu e era to intensa que durante alguns
momentos nada mais existia. Quer dizer, ento, que havia permitido que Leon fizesse amor com ela! Como era possvel semelhante coisa? A palavra permitir no era
das mais apropriadas. Ela o encorajara, o atiara... Levantou-se, tomando muito cuidado para no despertar Leon, e contemplou desolada seu vestido todo rasgado.
E agora, que roupa usaria?
      - Abra o guarda-roupa, que l encontrar o que vestir!
      Chloe voltou-se rapidamente e encarou Leon, surpreendida e envergonhada. Ele estava apoiado em um cotovelo e olhava desinibidamente o corpo nu de Chloe.
      - Mandei trazer suas coisas para bordo quando adivinhei as suas intenes.
      De repente Leon afastou as cobertas e vestiu o roupo que estava na cadeira ao lado da cama, aproximando-se dela. Chloe desejava retirar-se, mas simplesmente
no conseguia e, para sua grande humilhao, os olhos encheram-se de lgrimas.
      - Lgrimas! - Aquelas palavras eram quase uma carcia. - Por que ser? Saudades daquilo que poderia ter sido ou vergonha do que foi?
      Chloe sacudiu a cabea, sem dizer nada, e Leon colocou com muito cuidado as mos sobre o estmago dela, num gesto sensual e ao mesmo tempo protetor.
      - J lhe ocorreu que talvez neste momento a minha semente esteja crescendo dentro de voc? Chloe, Chloe, poderamos ter tanta coisa juntos... nosso filho...
filhos...
      - De fato, tudo, menos o amor. Eu...
      - No diga nada, a no ser que concorda que devemos passar os prximos dias como se estivssemos comeando tudo de novo.  preciso que isso acontea, Chloe,
pelo bem do filho que voc me dar.
      Chloe vacilou e sentia-se mais tentada do que gostaria de admitir. Amava aquele homem mais do que a tudo neste mundo e o que ele lhe oferecia era mais, muito
mais do que muitas mulheres tinham. Ela, entretanto, possua a coragem e o valor para fechar os olhos sobre a situao de Leon e Marisa, concentrando-se apenas em
ser a esposa que ele usava para proteger sua meia-irm; a mulher que permanecia a seu lado, em pblico, e a me de seus filhos.
      - Chloe?
      - Leon, eu...
      - Cristos! Fui eu quem fiz isto? - ele indagou subitamente, roando com delicadeza os lbios inchados de Chloe. - Eu a feri? Deixe-me ver...
      Diante daquela inesperada demonstrao de ternura, Chloe no conseguiu resistir e abriu a boca, a fim de que ele pudesse examin-la.
      - Da prxima vez eu a beijarei melhor...
      Por trs daquele comentrio bem-humorado Chloe intuiu um significado maior. Ele naturalmente queria dizer com aquilo que ambos deveriam dar mais uma oportunidade
a seu casamento. Ser que ela teria coragem para tanto? Leon dizia que o desejo existente entre ambos era suficiente, mas, e se ele descobrisse que ela sentia mais
do que desejo, ou se chegasse  concluso de que no conseguia superar os cimes que Marisa lhe inspirava?
      - O que existe entre ns vale algum esforo, no acha? - indagou Leon.
      Chloe abriu a boca, com a inteno de lhe dizer que, por mais que quisesse, no poderia concordar. No podia comprometer-se com um futuro que prenunciava dor
e desespero, mas, para sua enorme surpresa, ouviu sua prpria voz, trmula e pouco familiar, assentindo.
      - Sim.
      Leon no disse nada durante alguns segundos e acariciou mais uma vez Chloe.
      - Fico contente em saber que nosso filho ter os pais a seu lado. Agora vamos esquecer tudo o mais, a no ser o prazer de termos redescoberto um ao outro.
- Levantou Chloe em seus braos e dirigiu-se para a cama. - O melhor lugar para isso  aqui...


      CAPTULO VII

Q
uando Chloe despertou, a manh estava bem adiantada e ela se encontrava sozinha na enorme cama. Espreguiou-se sensualmente sob os lenis de seda e sentia todo
o corpo relaxado, aps aquela noite de amor. Levantou-se, vestiu um roupo e se contemplou no espelho. Que enorme diferena aquelas vinte e quatro horas haviam provocado!
O amor havia ocasionado uma transformao quase milagrosa. S que aquele sentimento no era mtuo... Quem amava era ela, ao passo que Leon...
      Chloe cerrou os punhos, angustiada. No, no devia pensar em Marisa e da para a frente deveria adotar apenas pensamentos positivos. Quem sabe com o tempo
conseguiria separ-lo de Marisa. Talvez j o tivesse conseguido, se no decidisse fugir... Agora precisava concentrar-se no fato de que ele a desejava, que teriam
uma relao estvel, juntamente com os filhos que nasceriam. Se isso acontecesse, Leon acabaria por se convencer que no poderia prosseguir seu relacionamento com
Marisa.
      No mais fundo de si mesma Chloe sabia que Marisa no poderia sair com tanta facilidade da vida de Leon. A jovem era obcecada por seu irmo. Chloe estremeceu,
a despeito do calor. As pessoas fanticas so perigosas, capazes de qualquer coisa para alcanar seus objetivos. Tinha de convencer Leon de que Marisa, e no ela,
tinha sido a responsvel pelo aborto. No se sentia nem um pouco preparada para voltar a correr o risco de que aquilo tornasse a acontecer.
      As ltimas vinte e quatro horas haviam de fato provocado uma profunda modificao! L estava ela, no somente aceitando reatar o casamento, mas fazendo planos
no sentido de proteger a vida daquela criana que havia jurado nunca mais ter. O amor que julgava morto simplesmente hibernava, e o calor do sol da Grcia o havia
trazido de volta  vida.
      - Ei, sua dorminhoca, voc no vem almoar comigo?
      Chloe saiu correndo para o banheiro, enquanto Leon entrava no quarto. A despeito de am-lo e de terem vivido como marido e mulher, ela ainda estava sujeita
a ataques de timidez.
      - Estou me vestindo. No demoro!
      - timo. Stavros j vai servir o almoo. O menu hoje  salada de lagosta, sopa de ervilhas e um sufl de chocolate. Que tal?
      - timo...
      Naquele instante Chloe sentiu que sua felicidade seria quase completa se no fosse Marisa. Precisava urgentemente parar de pensar naquela criatura.
      Isso, entretanto, apenas adiaria o problema e no o resolveria. Precisava enfrent-lo de frente e perguntar a Leon o que pretendia fazer em relao a ela.
Reconheceu que simplesmente no tinha a coragem de fazer semelhante coisa, pois receava ouvir a verdade. Leon certamente diria que no tinha a menor inteno de
desistir de seu relacionamento com a meio-irm. Como ela, Chloe se sentia fraca... Adotava a poltica do avestruz e enfiava a cabea na areia, para fingir que Marisa
no existia...
      Leon, no entanto, havia tentado arranjar um casamento para Marisa. Isto, com certeza, provava alguma coisa, no?
      Na verdade, a atitude de Leon significava simplesmente que ele sabia ser impossvel manter segredo para sempre em torno da situao. O casamento fora o primeiro
passo, no sentido de desviar a ateno de Marisa. Talvez a tentativa de encontrar marido para ela fizesse parte da prxima etapa. Marisa, no entanto, o derrotara
e continuaria a derrot-lo. Era bem verdade que a jovem desconhecia que a famlia Kriticos havia desistido da unio, mas Chloe conseguia prever o desfile de possveis
candidatos, todos eles recebidos por Marisa com duas pedras na mo, at Leon desistir. No fundo ele no haveria de querer v-la casada com outro homem.
      Quinze minutos mais tarde ela surgiu no deque ensolarado e Leon estava sentado sob um guarda-sol, enquanto o garom servia a mesa, festivamente decorada.
      - Ah, finalmente voc veio! Dormiu bem? - perguntou Leon, com ar profundamente malicioso, o que a fez corar violentamente.
      - Como voc est corada! Estou gostando de ver... Bem, vamos almoar e, aps repousarmos um pouco, mandarei parar o iate e nadaremos. No existe nada mais
agradvel do que nadar no mar aberto. Tenho certeza de que voc gostar... E hoje  noite jantaremos a ss, sob a luz das estrelas, singrando mares somente um pouco
mais escuros do que os seus olhos, depois que fao amor com voc...
      - Tudo isso est parecendo romntico demais para ser verdade... - observou Chloe, bem-humorada, encarando Leon com muita ternura.
      - No me olhe desse jeito. Assim acabo esquecendo do almoo e Stavros no ficar nem um pouco contente.
      - Pois ento acho melhor sentarmos. No gostaria de deixar Stavros aborrecido.
      - Sabia que voc iria dizer isso! Assim no vale!
      Chloe sentou-se  mesa e comeou a relaxar. Leon, quando estava de bom humor, era irresistvel, e no se lembrava de t-lo visto com aquela disposio, nem
mesmo durante sua lua-de-mel.
      A salada de lagosta estava deliciosa e Chloe achou que o ar fresco que circulava pelo deque era o responsvel por seu sbito apetite, alm da deciso repentina
de esquecer o passado e o futuro, concentrando-se apenas no momento.
      Chloe olhou para Leon e o sol refletia-se sobre sua aliana. Ele encheu novamente o copo dela e quando Chloe estendeu a mo para peg-lo, seus dedos se entrelaaram
com os dele.
      - Quero fazer um brinde a ns dois, a uma nova vida e ao reinicio de tudo.
      "Sem Marisa?"
      A pergunta queimava em seus lbios, mas ela decidiu no formul-la, limitando-se a sorrir com ternura. Uma hora mais tarde sentiu que h muito tempo no vivia
momentos iguais, enquanto se estendia ao lado de Leon numa espreguiadeira, tomando sol. Ele explicou que o iate era capaz de desenvolver grande velocidade e estava
equipado com o que havia de mais avanado em termos de radar e outros aperfeioamentos tecnolgicos. Convidou-a para visitar a embarcao e Chloe ficou maravilhada
com o luxo das acomodaes. Havia duas cabinas principais e quatro menores; uma outra que Leon usava como escritrio e biblioteca, uma sala de jantar elegantemente
mobiliada e uma sala de estar, to confortvel e bem decorada que Chloe quase perdeu o flego.
      - Este iate me serve muito nos meus negcios. Enquanto viajo, posso fazer reunies profissionais a bordo. Algumas pessoas preferem ter jatinhos particulares,
mas ns, gregos, sentimos um grande amor pelo mar, que nos acompanha desde o bero. E agora, que tal nadarmos? - sugeriu Leon, depois de terminada a visita. - Ordenarei
ao capito que lance a ncora.
      - tima idia! - disse Chloe entusiasmada, imaginando o quanto a gua devia estar fresca. - Vou pr um mai.
      - Para qu? A tripulao no nos ver, se  isso o que a incomoda. No h nada mais agradvel do que sentir a gua do mar batendo no nosso corpo.  a liberdade
total. Est bem - disse, suspirando, ao notar que Chloe hesitava. - V pr o mai, criatura tmida!
      Chloe no achou nas gavetas um mai, mas havia vrios biqunis, de tamanho reduzidssimo. Acabou se decidindo por um deles, cor de limo, que na realidade
no passava de um tringulo de algodo, com a parte de cima mal escondendo seus seios. Enfiou uma camiseta e foi ao encontro de Leon.
      A velocidade do iate se alterara e os marinheiros haviam colocado uma escada no casco da embarcao, juntamente com um trampolim. Sobre a mesa na qual haviam
almoado encontrava-se agora uma jarra com suco de melo e Leon, sentado preguiosamente numa cadeira, bebia. Levantou os olhos assim que Chloe se aproximou e admirou
seu corpo esguio. Ele, por sua vez, tinha o fsico de um verdadeiro atleta e seus msculos saltaram quando se levantou para receb-la.
      - J havia esquecido que voc no  mais uma garota no final da adolescncia... Mais alguns centmetros e voc no conseguir entrar neste biquni - murmurou
maliciosamente a seus ouvidos. - No sei o que  mais ertico: v-la neste biquni ou imagin-la sem ele...
      - Achei que fssemos nadar - comentou Chloe, protegendo os olhos do brilho ofuscante do sol. Notou  distncia pequenas ilhas, que se estendiam umas aps as
outras. - Que ilhas so aquelas? - perguntou, curiosa. Muito antes de conhec-lo j sonhava em viajar pelo mar Egeu. Queria apreciar a beleza de suas ilhas, o azul
profundo de seu mar, to manso, mas que se tornava um verdadeiro perigo quando o vento soprava como um agressor perigoso.
      - So as ilhas de Ios, Paros e Naxos. Vamos navegar entre Ios e Santorini. Dizem que Homero est enterrado na ilha de Ios. Se quiser poderemos visit-la e,
quem sabe, jantar l amanh...
      - Gostaria muito - disse Chloe, contemplando mais uma vez as ilhas, veladas por uma ligeira neblina azulada. No era de admirar que os gregos tivessem sido
to grandes poetas. Com tanta beleza os rodeando, como poderiam ter sido diferentes?
      - No se esquea de no se afastar muito do iate - recomendou Leon. - As distncias enganam.
      - No se preocupe. Gosto muito de nadar, mas no pretendo disputar as Olimpadas!
      Leon nadava admiravelmente bem, com grande economia de movimentos, e desenvolvia uma velocidade invejvel. Claro que um homem educado na Grcia devia mesmo
amar o mar. Ele mesmo o declarara, mas ao v-lo deslocar-se atravs das guas sem o menor esforo, Chloe convenceu-se de que ele estava em seu elemento.
      - Caia na gua, vamos! - ele gritou, flutuando, enquanto ela descia a escada. No ousava dar mergulhos espetaculares no mar denso e azul. Leon que caoasse
 vontade. Ela, definitivamente, no fora criada para aquilo!
      Leon comeou a se exibir, nadando em torno dela e debaixo da gua, fazendo mil e uma provocaes e afastando-se com uma rapidez que impedia toda e qualquer
vingana.
      - Assim no vale! Voc nada bem demais!
      -  a primeira vez que uma mulher me diz isso - murmurou Leon, enterrando a mo nos cabelos de Chloe. Puxou-a para si, moldando seu corpo ao dela e Chloe,
subitamente chocada, percebeu que, fiel  palavra dada, ele estava inteiramente nu!
      - Chloe!
      Ele havia deixado de lado o tom caosta e murmurava o nome dela com sensualidade, colando seus lbios aos dela. Chloe abandonou-se  seduo de seu beijo
e somente quando as mos dele se puseram a acariciar seus seios ela percebeu que ele havia removido a parte superior do biquni.
      - Assim  bem melhor... Agora voc parece uma ninfa do mar, que voltou ao seu elemento natural...
      Inicialmente Chloe estranhou, mas logo viu-se forada a admitir que era um enorme prazer sentir a gua fresca de encontro  sua pele. Seu corpo desfrutava
de uma liberdade inesperada, que a deliciava, e era inexprimvel a sensao provocada pelo contato do corpo nu de Leon. Ele prosseguia com suas brincadeiras e aquele
jogo, to inocente na aparncia, na realidade os excitava e os deixava cada vez mais inflamados.
      Leon percebeu instintivamente quando Chloe comeou a se cansar e ajudou-a a nadar em direo  escada. Notando sua preocupao, sorriu, compreensivo.
      - Est bem, ninfa do mar. Subirei primeiro e lhe jogarei uma toalha.
      Chloe sabia que estava agindo como uma tola. Leon j a tranqilizara, afirmando que no seriam vistos pela tripulao, mas mesmo assim ficava intimidada diante
da idia de andar praticamente nua pelo deque, afetando o mesmo descuido de seu marido.
      Como ele era bonito, pensou, vendo-o caminhar at ela e estender-lhe uma toalha. O exerccio a deixara sedenta e sentiu-se grata a Leon, que lhe dera de beber.
Admirou-se ao constatar quanto aquele rpido exerccio a deixara cansada. Estava fora de condies, mas seu estilo de vida no lhe deixava tempo para a prtica de
esportes.
      - Quer beber mais um pouco? - ofereceu Leon, sentado a seu lado.
      Chloe fez que no. Subitamente o motor foi ligado e o iate se ps a caminho.
      - Ancoraremos amanh na baa de Ios e iremos jantar l mais tarde. Gostaria que meu pai tivesse vivido para fazer o que estamos fazendo. Sua ambio era navegar
estes mares e explorar estas ilhas, mas jamais conseguiu realiz-la. Havia sempre algo mais importante a fazer, como, por exemplo, enviar-me  escola e encontrar
maridos para as irms dele. Voc teria gostado do velho. Era um homem simples, sob vrios aspectos. Muito honesto, acreditava naquilo que um homem pode conseguir
atravs do trabalho rduo. Sua crena era to firme que ele acabou ficando doente de tanto trabalhar e morreu.
      Chloe ouvia em silncio. Leon jamais lhe havia falado de sua famlia e ela sentiu-se repleta de ternura, tocando no brao dele num gesto de solidariedade que
o fez sorrir.
      - Tudo o que tenho devo a ele. Sem a educao que ele lutou para me dar jamais seria o que sou hoje. Meu primeiro negcio foi financiado por ele. Se conseguir
ser em parte o pai que ele foi, creio que me sentirei realizado. Confiou-me Marisa ao morrer. A me dela, Lydia, foi para mim tudo o que eu no tive. Meu pai desposou-a
quando eu tinha oito anos de idade. Minha me morreu quando eu nasci e Lydia me mimava escandalosamente.
      O corao de Chloe ficou pequenino. Leon jamais desistiria de Marisa a favor dela, pois a ligao existente entre ambos era forte demais.
      - Sei que Marisa consegue ser inconveniente, mas...
      - No precisa dizer mais nada. Compreendo.
      Naquele momento Chloe daria tudo o que tinha para no ouvir Leon explicar por que amava tanto Marisa. Aquele dia lhe pertencia e ela recusava-se a compartilh-lo
com a sombra da jovem.
      - Fale-me de quando voc era menino.
      - O que haverei de contar? Era levado como a maior parte das crianas e sem dvida importunava meus pais com a minha arrogncia. Talvez, como punio, nenhum
dos dois viveu o suficiente para ver-me tornar o homem bem-sucedido que sempre esperaram que eu fosse. Lydia morreu quando Marisa tinha dois anos, e meu pai seguiu-a
aps alguns meses.
      Durante alguns instantes ambos permaneceram em silncio. As palavras de Leon fizeram-na entender melhor a verdadeira natureza de seus sentimentos por Marisa,
mas isso no impediu que ela sentisse cimes, sempre que pensava na garota.
      - Acho melhor voc proteger sua pele - disse Leon de repente, mudando de assunto. -  to clara que poder ficar muito queimada. O vento do mar  enganador.
Fique aqui. Vou providenciar algo.
      Leon enfiou um short e, enquanto o contemplava, Chloe sentiu um aperto na garganta. Gomo podia pensar que deixara de am-lo? O amor no morria pelo simples
fato de uma pessoa recusar-se a reconhecer sua existncia, e, sobretudo um amor como o dela, cravado em seu corao, impresso em sua carne, escrito indelevelmente
em seus sentidos.
      Quando Leon voltou, ela deitou-se de bruos e protegeu os olhos do sol, que agora comeava a mergulhar no mar. Sentiu o desejo infantil de deter sua trajetria,
a fim de parar o tempo, como se a chegada da escurido trouxesse algum mal oculto. Era o legado dos pesadelos da infncia, disse Chloe para si mesma, tentando no
reconhecer que seus temores eram muito mais profundos do que aquilo e deviam sua existncia ao fato de que, mais cedo ou mais tarde, ela teria de encarar a verdade.
Ainda no!, suplicou uma voz interior. Ainda no...
      - Deixe que eu passo o leo nas suas costas.
      No tinha percebido sua aproximao e levou um susto quando ele comeou a aplicar o leo. A carcia ritmada e lenta de suas mos, no incio relaxante, tornou-se
cada vez mais ertica, e Chloe precisou se dominar, pois a nica coisa que desejava naquele instante era voltar-se e pressionar seu corpo de encontro ao dele.
      Um langor delicioso apoderou-se dela e agora tinha plena conscincia da sensualidade que invadia seu corpo. Seus sentidos se aguaram e ela percebia tudo o
que estava  sua volta. O desejo pulsava em suas veias, os seios tinham-se tornado rijos e inchados. As mos de Leon deslizaram para baixo e pousaram em sua cintura.
      - Leon!
      Ela comeou a tremer, enquanto ele virava seu corpo com muita lentido.
      Durante alguns segundos ele no fez nada, a no ser contempl-la, mas parecia que o sol grego havia despertado algo de pago em Chloe. Ela no sentiu o menor
constrangimento por estar nua. Ao contrrio, exultava diante da intensidade daqueles olhos que examinavam cada centmetro de seu corpo, com um desejo to manifesto
que o ventre de Chloe contraiu-se, como se protestasse diante da intensidade da reao dele. Leon inclinou a cabea e beijou-a rapidamente, como algum que toma
o primeiro gole, aps passar muita sede.
      - Leon!
      Chloe no fez a menor tentativa para disfarar seus sentimentos e os lbios de Leon comearam a roar-lhe a pele, excitando-a, satisfazendo-a, encorajando-a,
alimentando o desejo que agora flua sem impedimentos. Ele beijava-lhe o pescoo, os seios eretos e sua respirao era to ofegante quanto a dela.
      - Desta vez voc vai me acompanhar at o fim do caminho; deixar de lado esse pudor ingls, que sempre me priva de alguma coisa e ter de me desejar com a
mesma intensidade com que eu te desejo...
      Chloe enterrou os dedos nos cabelos de Leon, quase embriagada de prazer. Ele roava a lngua em seus lbios entreabertos, num tormento sensual, e ela acariciou
suas costas, suas cadeiras estreitas; sentindo que no agentava mais, deixou de lado os ltimos vestgios de autocontrole e beijou-o sofregamente.
      - Finalmente! Finalmente a minha ninfa do mar se torna humana!
      Chloe sentia que se afogava, que se derretia, que era absorvida pelo corpo de Leon. Desejava que aquele beijo se prolongasse para sempre e a nica coisa que
a tornaria uma mulher completa seria o fato de ser possuda por ele. As coxas e virilhas musculosas pressionavam seu corpo, que se curvava, num convite eloqente.
Finalmente ele a possuiu com tamanho ardor que ela mal controlava seus gemidos de prazer. Quando tudo terminou Leon recusou-se a solt-la.
      - Finalmente eu te possu de verdade... Agora voc me pertence de fato...
      Carregou-a em seus braos para a cabina e dormiu com a cabea aninhada em seus seios. Sua respirao profunda e compassada lembrava a Chloe os momentos de
xtase que acabara de viver, quando nada mais importava, a no ser a entrega quele homem a quem adorava.


      CAPTULO VIII

L
eon estava no chuveiro quando Chloe despertou. Ficou surpreendida ao perceber que havia dormido tanto, o que foi confirmado por Leon, quando ele entrou na cabina,
vestindo um par de jeans. Aproximou-se da cama e beijou com ternura seus lbios e os bicos de seus seios.
      - Hoje pretendo mostrar-lhe Ios e  noite jantaremos num restaurante que eu conheo.  propriedade de alguns amigos meus, mas primeiro preciso dar alguns telefonemas.
Parece que alguns dos meus scios tentaram entrar em contato comigo ontem. Felizmente dei ordens  tripulao para no sermos perturbados. - Leon sorriu, ao perceber
que Chloe corava. - Ah, os seus olhos me censuram por eu ser pouco cavalheiro e recordar a nossa paixo mtua, mas o seu corpo no est de acordo com o que voc
pensa... Alm do mais, acho ertico lembrar o que aconteceu entre ns... Bem, vou deix-la se vestir e darei ordens  tripulao para ancorar em Ios. Devemos chegar
l na hora do almoo. Comeremos a bordo, exploraremos a ilha e mais tarde iremos jantar.
      Chloe passou com generosidade leo de bronzear pelo corpo e colocou um chapu de palha cor-de-rosa, que combinava com o vestido da mesma cor, localizado no
guarda-roupa. Sandlias cor-de-rosa, em tom mais claro, completavam a toalete.
      O sol brilhava no cu sem nuvens, de um azul to intenso que se tornava quase impossvel acreditar que aquilo era real. Haviam navegado durante a noite inteira
e agora encontravam-se diante de Ios. Enquanto esperava Leon, Chloe contemplava o porto.
      Lojas e casas apinhavam-se em torno do cais, intercalando-se com restaurantes e bares. Os veranistas circulavam pelas ruas, queimados de sol. Quando Leon chegou,
ela voltou-se para ele e sorriu.
      Comeram no almoo um delicioso peito de frango cozido no vinho, acompanhado de cogumelos e salada de alface. Chloe mal conseguiu dar conta da sobremesa, uma
soberba musse de chocolate.
      - Bem, agora fao questo de lhe mostrar Ios! - declarou Leon, assim que terminaram.
      Enquanto vivesse, Chloe no esqueceria aquela tarde gloriosa. Percorreram o porto de mos dadas e Chloe ficava cheia de orgulho toda vez que olhava para Leon.
Mesmo estando vestido muito  vontade, com uma camisa de mangas curtas e jeans, dele emanava uma aura de poder que fazia todas as cabeas se voltarem, sobretudo
quando se tratava de mulheres. Ela tambm fazia sucesso e mais de um grego de olhos negros olhou-a com declarada admirao.
      Leon, pelo visto, conhecia a ilha muito bem e conduziu Chloe at uma lojinha situada numa ruela de casas muito alvas. Bateu na porta e um velho, muito enrugado,
atendeu e sorriu.
      - Ari! Achei que voc j no se lembrasse mais de mim!
      Imediatamente foram convidados a entrar e o ambiente era deliciosamente refrescante, aps o forte calor que reinava nas ruas. O velho Ari falava e Leon limitava-se
a ouvir. Chloe olhou em torno. Na loja vendia-se todo tipo de apetrechos destinados  pesca e era muito bem sortida.
      - Quer dizer que finalmente voc a localizou e a trouxe para eu conhecer, Leon? Pois fez uma bela escolha. Elas vo ficar muito bem nela, como talvez no ficariam
numa mulher grega. A pele dela refletir o seu brilho. Vou busc-las...
      Ari notou que Chloe estava cada vez mais intrigada e apreensiva e apressou-se a dar explicaes, num ingls bem pronunciado.
      - H muitos anos seu marido veio a esta ilha, logo aps uma terrvel tempestade. Naquela ocasio eu perdi meu filho e o meu barco e estava  beira do desespero.
Foi seu marido quem me deu esperanas, que me lembrou que eu tinha uma filha e que um dia teria netos. Deu-me tambm dinheiro para comprar esta loja e o seu estoque.
Apesar de nunca ter deixado de lamentar a morte de meu filho, acabei compreendendo que sempre vale a pena viver. Conforme Leon predisse, tenho dois belos netos e
nenhum deles ter necessidade de enfrentar o mar para tirar dele seu sustento. Em retribuio a tudo o que seu marido fez por mim, ofereci-lhe o nico objeto de
valor que eu possua, um colar de prolas, presente de meu pai, que as recolheu nesses mares. Leon recusou. Pediu que eu guardasse as prolas e somente quando encontrasse
uma mulher merecedora dessa ddiva, ele viria busc-las. Durante muitos anos temi que ele no cumprisse a sua promessa, mas agora vejo que ele foi sensato em esperar...
      Ari desapareceu nos fundos da loja e Chloe voltou-se impulsivamente para Leon, com a voz rouca de emoo, tentando transmitir o que sentia.
      - Ari tem razo. At agora nunca surgiu uma mulher a quem eu considerasse digna das prolas, cujo valor pode ser medido pelo nmero de vidas sacrificadas para
a sua obteno. Mergulhar em busca de prolas era a nica maneira que um morador destas ilhas tinha de conseguir alguma riqueza. O que Ari no lhe contou foi que
o pai dele e mais trs tios perderam a vida, sem conseguir completar um s fio de prolas. O prprio Ari tambm, mergulhou e danificou permanentemente os seus pulmes.
Eles amarram no corpo pesadas pedras e mergulham a profundezas inimaginveis.
      Antes que Chloe pudesse fazer algum comentrio Ari voltou, com uma pequena caixa de couro. Entregou-a a Leon, que a abriu, deixando Chloe estarrecida.
      As prolas pareciam desprender vida e ela tocou-as com admirao.
      - Volte-se.
      Chloe obedeceu s instrues de Leon e fechou os olhos, ao sentir o colar em torno de seu pescoo.
      - Que tal, Ari?
      - Como j disse, meu amigo, voc fez uma bela escolha e sinto-me feliz por me ter livrado de um dbito que, de vez em quando, me pesava muito.
      Permaneceram na companhia de Ari durante mais meia hora, bebendo um forte caf turco e Chloe limitava-se a ouvir, enquanto os dois recordavam os tempos passados.
Passava das trs quando finalmente partiram. Assim que puseram o p na calada, quase ficaram cegos, diante da luminosidade do sol.
      Caminharam em direo  praa principal, onde alugariam um txi a fim de visitar o tmulo de Homero.
      - Por que foi que voc aceitou o colar, Leon? - indagou Chloe, no conseguindo mais controlar a curiosidade. - Oh, sei que  muito bonito, mas...
      - Era a nica coisa que ele possua de valor, alm da loja. Chloe, voc ainda tem muito a aprender em relao ao homem grego. Ari apreciou muito a minha ajuda
e queria me reembolsar, mas a nica maneira de faz-lo era me oferecendo o que ele tinha de mais valioso. Se eu tivesse recusado, ele teria ficado mortalmente ofendido.
Daria a impresso que no valorizava o sacrifcio que ele estava fazendo. No percebe?
      O homem a quem Chloe havia desposado era uma estranha mistura. De vez em quando comportava-se com ternura e considerao, como a mais perceptiva das mulheres
e, no entanto, em outras ocasies... Precisava tentar enterrar definitivamente o passado, mas ele no permaneceria sepulto para sempre. Tinha que falar com ele a
respeito de Marisa e de seus planos, pelo amor  criana que um dia lhe daria. Mas no era chegado o momento, disse uma voz interior. Queria aproveitar aquele dia
at o fim!
      Tomaram um txi e seguiram uma estrada mal-conservada, em direo ao lugar onde estava enterrado o grande historiador, que havia dado ao mundo aquelas duas
obras-primas que so a Ilada e a Odissia. Como Chloe havia amado o trgico Aquiles, chorado por Cassandra e amaldioado Apoio, capaz de fazer tantas profecias;
chorado com Penlope, justamente compensada aps o retorno de seu marido...
      A sepultura no era to impressionante como Chloe havia esperado, mas mesmo assim havia um clima de paz, o que lhe proporcionou grande tranqilidade. Ambos
permaneceram em silncio durante alguns minutos e Leon caminhou de volta com ela para o txi.
      O dia chegava ao fim, quando voltaram para o iate, mas, pela primeira vez desde que Chloe havia chegado  Grcia, o pr-do-sol no foi espetacular.
      Ela usou um dos dois trajes de noite que havia encontrado a bordo. Era azul-turquesa e valorizava sua pele queimada. Chloe ps o colar de prolas e seus olhos
ficaram midos de lgrimas. Sentiu-se profundamente tocada ao saber que o velho Ari a considerava digna de tamanha ddiva.
      "Ari, farei jus a essas prolas", prometeu em silncio, convicta de que encontraria foras para um dia enfrentar Leon, no que dizia respeito a Marisa.
      Ele entrou quando ela passava batom e ficou a contempl-la durante alguns segundos sem dizer nada.
      - No estou vestida com excessiva cerimnia, no  mesmo? - indagou Chloe com ansiedade. - Voc disse que iramos a uma boate...
      - Est perfeita. Os freqentadores dos bares e tavernas da ilha vestem-se muito  vontade, mas essa boate pertence a um hotel muito elegante. Que bom que esteja
usando as prolas! - ele acrescentou com ternura, beijando-a suavemente na nuca.
      Chloe usava os cabelos para cima, e assim que ps as sandlias Leon olhou-a com declarada admirao. Se fosse desfilar numa passarela no faria nada feio,
naquele momento!
      Um velho txi os esperava no cais e, a despeito de sua aparncia, era limpo e confortvel. A noite estava muito escura e eles mal conseguiam distinguir a paisagem.
Finalmente chegaram a uma pequena baa, junto  qual havia um bosque de oliveiras, iluminado por luzes coloridas.
      O txi parou diante da suntuosa entrada do hotel e, ao descer, Leon pagou o chofer, dando-lhe rpidas instrues.
      - Disse a ele que venha nos buscar mais tarde. Gosto imensamente de danar, mas no chego ao exagero dos meus amigos, que so capazes de ficar numa pista at
o sol raiar. H maneiras muito mais interessantes de passar a noite, no acha?
      Chloe ainda estava ruborizada quando entraram na recepo do hotel. Um garom impecavelmente trajado dirigiu algumas palavras a Leon e logo aps entrou por
uma porta na qual havia uma placa com a inscrio "Entrada Proibida". Alguns segundos mais tarde a porta se abriu e surgiu um homem que caminhou rapidamente em direo
a Leon, abraando-o.
      - Leon! Que prazer! Por que no nos avisou que vinha?
      - Foi uma deciso de ltima hora. Kristos, quero apresentar-lhe minha mulher.
      Kristos Kalymides inclinou-se e sorriu.
      - E Marisa?
      - Ficou em Eos.
      - Que pena. Bem, vocs sero nossos convidados. Gostaria de jogar, Leon? - Kristos recebeu uma recusa e sorriu. - Desculpe, meu amigo,  claro que no quer.
J estava esquecendo. Afinal de contas, os negcios so muito mais excitantes do que um mero jogo de roleta, no  mesmo? E  nesse mundo que voc vive...
      - Trouxe Chloe para que ela possa ver as danas tradicionais gregas.
      - Claro! S que elas j no so mais danadas diante dos turistas. Os danarinos no gostam de enfrentar esse tipo de pblico. Para eles a dana  algo muito
srio,  um ato sagrado. Jantaro aqui,  claro? O que gostaria como entrada? Caviar?
      - Nada disso, Kristos. Gostaria que Chloe experimentasse a nossa comida tradicional: aquela sopa que sua me costumava preparar, quando eu era menino; pitta
assada, como s ela sabe fazer; frutos do mar, espetos e, para terminar, doces de amndoas...
      - Pode deixar comigo. Venham, Anthony os levar at a mesa. Spiro  quem conduz o grupo de dana agora. Lembra-se dele? Costumava pescar no barco do pai, at
o velho morrer. Agora tornou-se guia turstico e ganha muito mais do que seu pobre pai. As coisas mudaram muito por aqui!
      - Mas o que voc faria sem os turistas, meu amigo? Quem se hospedaria neste belo hotel?
      Kristos, rindo, deu um tapinha nas costas de Leon e chamou um garom.
      - Divirtam-se. Posso vir encontr-los mais tarde ou a minha presena seria inconveniente?
      O garom os conduziu a uma mesa prxima  pista de dana, mas ainda assim colocada em lugar bem discreto.
      A no ser em Paris, Chloe jamais havia ido a um restaurante to luxuoso. A sopa, cremosa e que desprendia um cheiro delicioso, estava tima. Os mexilhes eram
incomparveis. Tomaram um vinho tinto que se casava perfeitamente bem com o espeto de carneiro.
      Chloe mal conseguiu tocar nos doces de amndoa, aps terminar de comer, mas, a fim de agradar Kristos, que viera ao encontro deles, forou-se a beliscar um
doce.
      A maior parte das pessoas havia terminado de comer. A conversa s mesas foi morrendo e aos poucos criou-se um clima de expectativa.
      Quando finalmente o grupo de danarinos, todos homens, apareceu, o silncio tornou-se mais profundo. Leon relaxou na cadeira e entrelaou seus dedos com os
de Chloe.
      - Agora os senhores vero uma apresentao por um grupo aclamado em toda a Grcia. Ganharam numerosos prmios e Kristos sente-se muito feliz por poder mostr-los.
      " Chloe, excitada, sentou-se na ponta da cadeira, tentando seguir os passos geis e rpidos, e somente se distraiu ao ver os garons indo de mesa em mesa,
distribuindo pilhas de pratos.
      - O que eles esto fazendo?
      - Espere e ver! - disse Leon com ar misterioso, chamando o garom e pegando meia dzia de pratos. - Quer beber mais alguma coisa?
      Chloe fez que no. J se sentia um pouco tonta e estava decidida a encarar, aquela noite, a presena de Marisa na vida de Leon. Queria perguntar-lhe o que
ele pensava fazer em relao  situao, e para isso precisava estar de cabea fria!
      A msica foi em um crescendo e todos os presentes se levantaram, comeando a jogar pratos na direo dos danarinos, para grande espanto de Chloe. Os artistas
continuaram com seus passos complicados, sem demonstrar a menor hesitao.
      - Mas o que esto fazendo, Leon?
      -  uma maneira de demonstrar o quanto esto gostando. Quanto mais uma pessoa aprecia a dana, mais pratos ela joga. Na Espanha jogam flores, em sinal de apreciao
por um toureiro; na Inglaterra, jogam tudo quanto  objeto em um campo de futebol, mas aqui na Grcia recorremos aos pratos. Assim, veja!
      Chloe, encorajada por Leon, jogou alguns pratos na pista da dana, admirada em ver como os danarinos evitavam os cacos.
      Era muito tarde quando se retiraram. Kristos sentou-se  mesa deles, assim que os danarinos acabaram, e ele e Lon passaram muito tempo relembrando o passado.
Haviam trabalhado juntos em Atenas, nos escritrios de um armador milionrio, mas Leon no se descuidava da presena de Chloe. Permaneceu abraado com ela o tempo
todo e a olhava continuamente.
      - Antes de partirem precisam ficar conhecendo os danarinos - insistiu Kristos. Foram at atrs do palco, onde o amigo de Leon os apresentou aos encantadores
rapazes que haviam danado to bem.
      Em seguida dirigiram-se ao apartamento privado de Kristos, a fim de conhecer sua famlia e dar um al para as duas crianas sonolentas que levantaram da cama
para beijar o av, a quem no viam h algum tempo. Finalmente Chloe e Leon partiram, no de txi, mas no carro de Kristos. Ele os acompanhou at a porta e olhou
para o cu. Leon e Chloe fizeram o mesmo, surpreendendo-se ao perceber que no havia estrelas no firmamento.
      -  mau sinal - comentou Kristos. - A temperatura comeou a cair.
      - Vem a um temporal - observou Leon.
      Enquanto regressavam ao iate, Leon parecia perdido em seus pensamentos e uma ou duas vezes Chloe teve de repetir os comentrios que fazia, antes que ele se
desse conta. Que estaria acontecendo?, indagou-se Chloe.
      Subiram a bordo em silncio e foram diretamente para a cabina. A primeira coisa que Chloe fez foi tentar abrir a fechadura do colar, mas no conseguiu. Pediu
auxlio a Leon e, quando ele se aproximou, seu odor msculo penetrou-lhe nas narinas.
      - Pronto!
      Leon entregou o colar com um sorriso.
      - Divertiu-se hoje  noite?
      - Diverti-me, sim.
      O ar parecia carregado de eletricidade e o desejo pulsava entre os dois. Antes que ele a tomasse nos braos ela j sabia o que iria acontecer.
      Ele baixou rapidamente o zper do vestido e quase arrancou o traje de seu corpo. Em seguida abraou-a com tamanha fora que ela conseguia sentir os botes
da camisa dele pressionando sua carne. A camisa de Leon estava desabotoada  altura do pescoo, mostrando um palmo de pele queimada de sol e coberta de plos negros.
Chloe beijou-o levemente, e seus lbios se entreabriram. Leon segurou seus seios, acariciando-os, at eles ficarem rijos. O desejo invadiu-a com o mpeto de uma
torrente. Leon a fez deitar na cama e comeou a explorar lentamente seu corpo, mediante beijos prolongados e sensuais. Suas carcias foram retribudas com idntica
intensidade e Chloe estremeceu nos braos dele. Todo o corpo de Leon estava retesado como um arco e os lbios de Chloe seguiram a trilha negra de seus plos.
      - Cristos, Chloe!
      Os lbios de Leon colaram-se aos dela, transmitindo toda a intensidade de seu desejo.
      Chloe ouviu um som que vinha  distncia, familiar e perturbador. Tentou ignor-lo, pressionando seu corpo de encontro ao de Leon, entrelaando suas pernas
s dele, mas de nada adiantou, pois ele se afastou.
      - O telefone est tocando! - murmurou Leon.
      "Pois deixe tocar!", ela teve vontade de dizer, mas ele j se sentava, tirando o aparelho do gancho. Ouviu em silncio, durante alguns segundos, e a expresso
de seu rosto aos poucos se modificava. Chloe sentia que cada vez mais Leon se afastava dela.
      - O que foi? O que aconteceu? - ela indagou, quando ele colocou o telefone no gancho e ficou com o olhar perdido e os cotovelos apoiados nos joelhos.
      -  Marisa. Desapareceu... Pelo visto, foi dar um passeio hoje  tarde e at agora no voltou. Esto vasculhando a ilha inteira. Precisamos voltar. - Leon
pegou o telefone interno e comunicou-se com o capito. - Por favor, quero saber qual  a previso do tempo. Prepare-se para voltarmos para Eos o mais rapidamente
possvel.
      Leon ouviu durante alguns segundos, com o cenho franzido. Seus pensamentos estavam to distantes que Chloe duvidava que ele tivesse conscincia de sua presena.
      Uma amargura imensa apoderou-se dela. Havia-se proposto a perguntar a Leon quais eram seus sentimentos em relao a Marisa.
      Bem, agora tinha a oportunidade de constatar. Ele no fazia a menor questo de ocultar sua preocupao. H alguns momentos estivera a ponto de fazer amor com
ela e, no entanto agora, aps um telefonema, estava completamente esquecida. A dor penetrou-a fundo e ela estendeu a mo,  procura do roupo.
      - As previses do tempo no so nada animadoras - informou Leon, assim que desligou. - Espero que voc seja boa marinheira, pois vem a uma tempestade.
      - Mas no haver perigo, no  mesmo? - indagou Chloe, estremecendo um pouco ao relembrar as histrias que havia lido sobre o perigo daquelas tempestades no
mar Egeu. Na Grcia antiga pensava-se que essas tormentas eram causadas pela ira de Poseidon, o deus do mar, e em algumas ilhas chegava-se at mesmo a fazer sacrifcios
humanos, a fim de apazigu-lo, da mesma forma que ela estava sendo sacrificada, devido ao desejo de Leon por Marisa!
      - Mas ser que no podemos esperar at amanh para voltarmos? Marisa no deve ter ido longe! Voc mesmo disse que todos estavam procurando por ela.
      - Voc no entende! Eu tenho de voltar... Chloe... desculpe, mas no posso deixar de faz-lo. Tenha pacincia, sim?
      Chloe concordou, muito a contragosto, e tentou dominar o medo. Afinal de contas, o que Leon lhe pedia naquele momento? Que o perdoasse por ele ser incapaz
de superar seus sentimentos em relao a Marisa? Esperar pacientemente, em um discreto segundo plano? Era natural que ele se preocupasse com sua irm e ela devia
parar de tirar concluses falsas. Leon a desejava. Ele no somente o declarara, como tambm o demonstrara. Ela precisava ter confiana nele. Chloe respirou fundo,
enchendo os pulmes de ar.
      - Vou me vestir.
      - Assim  que eu gosto! Irei at o convs. Creio que esta noite ser longa!


      CAPTULO IX

A
ssim que acabou de vestir o jeans e uma blusa, Chloe convenceu-se de que havia prestado excessiva ateno  preocupao de Leon. Precisava parar de atormentar-se,
imaginando coisas, mas ainda assim arrependia-se por no ter conversado com ele a respeito de Marisa, quando a oportunidade se apresentou. Somente um ser completamente
insensvel escolheria aquele momento para indagar sobre suas futuras intenes, mas ela bem que gostaria que tudo estivesse acertado entre os dois, antes de voltarem
para Eos.
      Encontrou Leon ao lado do capito. Ele a recebeu com um breve sorriso, segurando-a a fim de que ela no perdesse o equilbrio, pois o iate adernou subitamente.
      A temperatura havia cado e o vento soprava com fora, desmanchando os cabelos de Chloe.
      - Se tivermos sorte, conseguiremos evitar o pior da tempestade, pois tracei um roteiro - informou o capito.
      - Chloe, acho melhor voc descer para a cabina. L pelo menos estar abrigada e no se molhar. Ficarei ao lado do capito.
      Ela obedeceu, mas o tempo parecia se arrastar. Tentou ler um livro sobre mitologia grega, que encontrou em uma das estantes, mas no conseguia se concentrar
de modo algum. Vrias vezes teve mpetos de subir at o convs e indagar de Leon quais eram suas futuras intenes em relao a Marisa, mas o orgulho a impedia de
faz-lo.
      A maaneta da porta girou e seu sorriso morreu na mesma hora, ao ver um dos marinheiros entrar com uma xcara de caf. Chloe agradeceu e voltou a sentar. Gostaria
muito de ir ao encontro de Leon, mas, ao olhar pela portinhola, notou o quanto o mar estava bravio e achou mais sensato permanecer onde se encontrava.
      Quatro horas depois de terem deixado Ios aproximavam-se do pequeno porto de Eos. Leon desceu at a cabina, avisando Chloe da chegada iminente.
      - Spiro est  nossa espera, ao lado do jipe. Ele a levar at em casa e...
      - Quer dizer que ainda no a encontraram?
      Leon fez que no.
      - Leon... Deixe-me ir com voc! Por favor!
      -  perigoso demais! Voc no conhece a ilha. Pelo amor de Deus, no me olhe desse jeito! Tente compreender, Chloe.
      Ela deu as costas, para que Leon no pudesse ver seus olhos cheios de lgrimas. Encarou aquela recusa como uma rejeio, em favor de Marisa, mas o bom senso
preveniu-a de que a atitude mais egosta que poderia tomar naquele momento era entregar-se s emoes. O amor que sentia por Leon pairava acima dos temores e dos
cimes e ela, engolindo em seco, forou um sorriso.
      -- Assim  que eu gosto!
      Leon beijou-a rapidamente e partiu em direo ao alojamento dos tripulantes. Voltou somente quando estava a ponto de atracar, abrigado em uma capa de chuva.
Parecia bastante controlado e dava ordens ao capito.
      - Disse-lhe que levasse o iate para o porto do Pireu - explicou a Chloe, aps desembarcarem. - O porto aqui no  suficientemente abrigado para oferecer segurana
durante uma tempestade.
      Leon praguejou, pois a chuva molhou seus rostos e Chloe estremeceu de frio. Estava ensopada, mas resolvera controlar-se, pois no queria de forma alguma dar
a impresso de que estava tentando impedir Leon de ir ao encontro de Marisa. Ele a ajudou a subir no jipe em silncio, acomodando-se a seu lado. Durante o percurso
interrogou Spiro, ouvindo atentamente enquanto o rapaz o informava sobre as tentativas de se localizar Marisa.
      - Voc disse que ela caminhava em direo aos penhascos, quando Petros a avistou?
      - Sim, mas no se encontra l. Procuramos em todos os lugares, inclusive na praia.
      Assim que entraram em casa Chloe mal teve tempo de notar a preocupao estampada no rosto da governanta e de Gina. Tremia tanto que mal tinha foras para andar.
Leon tomou-a nos braos e transportou-a para o quarto, deitando-a na cama. Chloe abriu a boca, com a inteno de lhe dizer que ele no devia se atrasar por causa
dela, mas Leon silenciou-a, tirando sua blusa e o jeans, ambos encharcados, e enrolando-a na toalha que havia trazido do banheiro. Logo em seguida esfregou-a inteira,
tentando aquecer seu corpo enregelado.
      - Cristos! Minha pobre Chloe! Esqueci que voc no tem nada quente para usar.
      Chloe no conseguiu dizer nada. O toque de Leon fazia muito mais do que trazer calor a seus membros enregelados. Lembrava-lhe, de maneira quase insuportvel,
o desejo que explodira entre os dois c, para sua grande consternao, ela sentia seu corpo reagindo quele toque. Leon percebeu o que acontecia, pois deteve-se subitamente.
      - Chloe... - ele murmurou, beijando-a, sem conseguir se controlar. - Cristos, preciso ir embora... Preciso, sim, Chloe... Deus sabe que eu daria tudo para
ficar a seu lado, mas...
      Leon retirou-se e ela no ousou suplicar-lhe para ficar.
      Chloe tinha acabado de sair do banho quando ouviu barulho no quarto. Enfiou o roupo e deparou com Gina, que colocava sobre a mesa uma bandeja contendo um
prato de sopa e torradas.
      - O patro disse que a senhora precisa se alimentar - explicou a criada, fechando as cortinas. - A ventania est terrvel. Eu bem que disse  srta. Marisa
que no valia a pena sair, mas ela recusou-se a ouvir. O vento afeta algumas pessoas e elas no so capazes de resistir ao seu chamado. Alguns dizem que o vento
 a voz das Frias, atraindo para a morte aqueles que se mostram suficientemente tolos para ouvi-la.
      - Que bobagem! - Chloe mal conseguiu controlar a irritao. Gina era uma moa simples e sem dvida tinha crescido ouvindo aquelas lendas. - Desculpe, Gina.
O vento deve estar afetando a mim tambm.
      - A senhora no precisa se preocupar, pois nada lhe acontecer.
      Chloe custou para dormir, mas finalmente conseguiu conciliar o sono. Ouviu vozes no corredor e acordou, lembrando-se no mesmo instante do que tinha acontecido.
Olhou para o travesseiro ao lado, mas Leon obviamente no havia dormido l. O medo a invadiu e sua boca ficou seca, tamanha a apreenso que sentia. Jogou as cobertas
de lado e correu at a porta.
      Spiro encontrava-se no corredor, conversando com Gina, e a expresso deles indicava que algo de grave acontecia.
      - Meu marido! O que foi que...
      - O senhor est bem - tranquilizou-a Spiros -, mas a srta. Marisa...
      - Ainda no a encontraram?
      - Encontraram, sim, mas no est muito bem. Foi localizada em uma pequena gruta no penhasco, pois o mar a prendeu l. O senhor desceu at a gruta, por meio
de uma corda, e ficou com ela at os nossos homens os tirarem de l.
      - E onde  que ele est agora? - perguntou Chloe, sentindo um alvio indescritvel ao ouvir a voz de Leon, que vinha do hall.
      Chloe saiu correndo at a escada e surpreendeu Leon carregando Marisa nos braos. Estava muito plido e parecia exausto. Levantou os olhos e contemplou-a.
Durante alguns segundos Chloe seria capaz de jurar que viu ternura e amor em seu olhar. Ele deu um passo adiante e Marisa ergueu a cabea.
      Ela tambm estava profundamente plida e havia uma expresso de amargura em seu olhar. Seus cabelos molhados grudavam no rosto e no pescoo.
      - Chloe...
      Antes que Leon pudesse prosseguir, Marisa gritou, angustiada.
      - No... No, Leon, por favor, no me deixe! Por favor, no me deixe! - Ela tremia dos ps  cabea e abraou-o, desesperada. Sua saia e blusa estavam sujas
e rasgadas e, em alguns pontos, a pele estava muito arranhada.
      - Est bem, menina, eu no vou a lugar nenhum... Chloe, providencie roupas para vocs duas o mais rpido possvel. Marisa est em estado de choque e quero
lev-la j para Atenas. O helicptero j est esperando. Voc demora muito?
      - Cinco minutos - prometeu Chloe, recusando-se a pensar no dio que surpreendeu no olhar de Marisa, quando se encararam.
      Decidiu guardar as perguntas para mais tarde, quando Leon estivesse repousado e Marisa fosse medicada.
      Chloe cumpriu sua palavra e dentro de cinco minutos estava de volta, usando jeans e uma blusa de flanela, com uma maleta na mo.
      Spiro encontrava-se  sua espera. Leon e Marisa j estavam no helicptero e quando Chloe entrou no aparelho ele se encontrava sentado no banco do piloto. Marisa,
aparentemente adormecida, estava reclinada em duas cadeiras.
      - Fique de olho nela, sim? - pediu Leon. - Eu lhe dei uma injeo tranqilizante, seguindo as instrues do dr. Livanos, a quem telefonei. Os efeitos duraro
at chegarmos ao hospital.
      - O que foi que aconteceu? - perguntou Chloe dez minutos mais tarde, quando j haviam decolado. - Spiro disse que voc encontrou Marisa numa gruta.
      - Exatamente.
      Ele no deu outras informaes, concentrando-se em dirigir o helicptero.
      - Mas como foi que ela chegou at l?
      - No tenho a menor idia - disse Leon bruscamente. - Uma vez que a localizei, a minha nica preocupao era salv-la. Jamais a teramos localizado se Spiro
no tivesse descoberto o seu suter enroscado num arbusto, l nos penhascos. Chegaremos em Atenas dentro de uma hora. Eu a conduzirei diretamente ao apartamento
e ento levarei Marisa para o hospital.
      Prosseguiram a viagem em silncio e um dos empregados de Leon estava  espera deles no aeroporto. Cumprindo sua promessa, Leon primeiro levou Chloe at o apartamento
em que tinham passado os breves meses de seu casamento.
      Ao v-lo, voltaram recordaes que ela preferia no ter ressuscitado e percorreu todos os quartos, enquanto aguardava a volta de Leon, tentando no recordar
aquele dia fatdico em que Marisa lhe revelou a verdadeira natureza de seu relacionamento com o irmo.
      J era bem tarde quando Leon voltou. O dr. Livanos havia decidido que Marisa dormiria no hospital aquela noite, por uma questo de segurana.
      - No entendo o que a levou a sair com um tempo daqueles - comentou Chloe, intrigada. Estavam na sala de estar e Leon, com um copo de usque na mo, no disfarava
a preocupao que sentia. - No creio que andar seja um dos passatempos favoritos de Marisa. Ao contrrio, creio que ela no gosta nem um pouco.
      - E voc acha que isso tem muita importncia?
      Leon abriu os olhos e havia uma certa dose de agressividade em sua pergunta, o que deixou Chloe muito pouco  vontade.
      - De fato, no. Era apenas curiosidade. Leon... - O instinto a prevenia que aquele no era o momento apropriado para se discutir o futuro, mas ela tinha de
saber a verdade. - Leon, sei que voc quer que fiquemos juntos, que proporcionemos uma vida estvel aos filhos que teremos, mas eu tenho de lhe perguntar algo...
      Seu pedido foi acolhido com o mais completo silncio. Leon tornara a fechar os olhos, sem a menor reao.
      - Sei que no  a ocasio de abordar este assunto, mas preciso saber... O que voc pretende fazer em relao a Marisa?
      Prosseguia o mesmo silncio enervante! Chloe forou-se a olhar para Leon e, de repente, ele largou o copo, que caiu no cho.
      - Leon!
      Chloe aproximou-se rapidamente e a preocupao deu lugar a uma grande irritao. Leon simplesmente tinha dormido! Ao contempl-lo, foi tomada por indizvel
ternura. No lhe importava mais se ele tinha ou no ouvido sua pergunta. A nica coisa que contava naquele momento era o amor irresistvel que sentia por aquele
homem.
      Ela o acomodou no sof o melhor que pde e deu ordens aos empregados para no perturb-lo. Cobriu-o com um acolchoado leve, apagou as luzes e fechou a porta.
      O telefone tocou vrias vezes e uma das chamadas era de Spiros, da ilha. Chloe assegurou-lhe que estava tudo sob controle. Vrios amigos de Leon queriam saber
da sade de Marisa. Era incrvel como as notcias corriam rpido! Por volta das nove horas a sra. Kriticos telefonou, porm, mostrava-se mais preocupada com Leon
do que com sua irm.
      - Pelo que vejo voc no seguiu o meu conselho, Chloe. Livre-se dela, minha cara, pois acabar descobrindo que est alimentando uma serpente em seu seio.
      "Ah, se isso fosse possvel", pensou Chloe. Como seria bom ter uma fada madrinha, que a tocasse com sua varinha mgica e pusesse tudo em ordem!
      Por volta das dez Chloe foi at a sala de estar a fim de dar uma espiada em Leon. Aproximou-se e logo constatou que ele j estava acordado.
      - Mas o que estou fazendo, deitado aqui?
      - Voc  quem sabe. Julguei que estivesse exausto.
      - Hum, achei que voc quisesse tirar vantagens de um homem indefeso!
      - No  verdade! Voc parecia estar to cansado...
      - Sim, cansado demais para levantar e ir para o quarto. Cansado demais at mesmo para me despir. Quer faz-lo por mim?
      Chloe tentou controlar-se, mas no conseguiu, tremia intensamente enquanto Leon beijava seu pescoo e a puxava para junto de si.
      - E ento? Vai ter pena de mim e me ajudar, como uma esposa dedicada?
      - Creio que sim.
      Ela procurou manter a voz neutra e tentou imitar o autocontrole de Leon, hesitando de propsito antes de comear a desabotoar a camisa dele. Todo fingimento
foi deixado de lado no momento em que Leon tomou-a nos braos, com a voz carregada de desejo. - Chloe, como eu te quero...
      Depois disso ela no se controlou mais. Chloe esqueceu onde estavam, o que tinha acontecido, tudo enfim, a no ser o calor do corpo de Leon, sua proximidade
e o calor abrasador de sua boca que se colava  dela. Sentiu-se perdida, afogada em um poo sem fundo, onde o prazer reinava soberano.
      - Leon!
      Aquela voz to conhecida deixou-a profundamente chocada. Leon praguejou, apressando-se em cobri-la com o acolchoado. Ela sentou-se e seus olhos se arregalaram,
mal acreditando no que viam. Marisa estava junto  porta, plida, ciente de que havia interrompido algo.
      - Leon, como pode fazer semelhante coisa? Como pode estar com ela, quando eu tanto necessito de voc?
      - Pelo amor de Deus, Marisa... - Ela deu as costas e saiu.
      - Marisa, espere!
      Chloe ficou parada como uma esttua de mrmore, enquanto Leon vestia a cala e a camisa. Ouviu a porta de um quarto bater com estrondo e imaginou que fosse
Marisa. No conseguia atinar o que ela estava fazendo fora do hospital. Desejava ouvir a voz de Leon, esperando que ele lhe dirigisse algumas palavras de ternura
e reconforto. Sentia-se ridcula, como se tivesse sido surpreendida fazendo amor com o marido de outra mulher. A sbita apario de Marisa provocou-lhe uma tenso
interior, que s poderia ser desmanchada se Leon a tomasse nos braos. Essa proteo, entretanto, no lhe foi oferecida. Em vez disso, Leon calou os sapatos e saiu
rapidamente. Com que objetivo? Tranqilizar Marisa, assegurando-lhe que aquilo que ela presenciara no significava absolutamente nada?
      Ela j estava na cama quando Leon surgiu no quarto, uma hora mais tarde.
      - Marisa agora est bem? - ela indagou, procurando mostrar-se calma e despreocupada.
      - Ao que parece, sim. Saiu do hospital por sua livre e espontnea vontade. Estava  beira da histeria e, em vez de for-la a voltar, telefonei ao dr. Livanos
e ele permitiu que ela ficasse aqui. Como estou cansado...
      - Leon, precisamos conversar a respeito de um assunto... Marisa...
      - Pelo amor de Deus, agora no. Conversaremos amanh. Agora a nica coisa que eu quero fazer  dormir.
      E foi exatamente o que ele fez. Chloe permaneceu a seu lado, tensa. No podia passar o resto da vida ignorando sua prpria insegurana e seus temores. Passaram-se
muitas horas antes que ela conseguisse conciliar o sono.
      Assim que acordou, levou alguns segundos para perceber que estava sozinha. To logo seus olhos se acostumaram  escurido, percebeu que Leon jogara as cobertas
de lado e se retirara. Chloe consultou o relgio. Eram trs horas da madrugada. Um temor absurdo a fez saltar da cama e sair corredor afora. Uma rstia de luz passava
pela porta do quarto de Marisa e ela conseguiu ouvir o som de vozes abafadas. Trmula, girou a maaneta e abriu a porta.
      Marisa encontrava-se nos braos de Leon e as curvas voluptuosas de seu corpo eram plenamente visveis  luz suave do abajur. Leon estava sentado na cama dela
e de costas para a porta.
      Chloe sentiu um terrvel mal-estar e apoiou-se na porta para no cair.
      - Prometa que sempre me amar, Leon! - dizia Marisa apaixonadamente. - Prometa-me que a mandar embora. No suportarei a situao, se isso no acontecer. Quero
que tudo volte a ser como antes entre ns dois.
      Chloe no conseguiu distinguir a resposta de Leon e Marisa apertou o corpo de encontro ao dele, beijando-o no rosto. Retirou-se imediatamente e, cambaleando,
conseguiu chegar at o quarto.
      Que estpida havia sido! Marisa j lhe dissera por que Leon a queria de volta; para ter um filho. Ela, no entanto, recusara-se a acreditar, havia alimentado
iluses romnticas e no podia culpar ningum por isso. Leon no regressou e, quando o sol comeou a raiar, Chloe reconheceu finalmente que tinha perdido. A despeito
do grau de desejo que Leon sentia por ela, no estava preparado para desistir de Marisa. Teria ela coragem para suportar a situao, ano aps ano, vendo seus filhos
crescerem  sombra daquele relacionamento absurdo, esperando que Marisa os destrusse, como j havia destrudo aquela criana que no chegara a nascer? Chloe sabia
a resposta.
      Leon havia tornado tudo mais fcil para ela. Encontrava-se tomando o caf da manh na saleta quando Chloe entrou. Ele estava com os cabelos midos, como quem
tivesse acabado de tomar banho, e usava terno e gravata.
      - Tenho de tratar de negcios e vou ficar fora a maior parte do dia. Voc queria falar comigo ontem  noite. Essa conversa pode esperar?
      - Receio que no... Sinto muito, Leon, mas decidi que no posso ficar com voc. Sim, sei muito bem do que estarei desistindo, mas compreendo perfeitamente
que no posso contemporizar. No vejo que as coisas possam dar certo entre ns, na ausncia do amor. Refiro-me ao amor verdadeiro, no apenas  paixo ou ao desejo.
No acho tambm que seria justo sujeitar os nossos filhos ao tipo de relacionamento que teramos.
      Leon permaneceu em silncio durante alguns instantes e encarou-a de frente.
      - Se  assim que voc se sente...
      - , sim. E no mudarei de idia, quaisquer que sejam as circunstncias.
      - Muito bem. No vejo o menor sentido em prolongarmos o assunto. Vou indagar o horrio do prximo vo para Londres e reservar um lugar para voc. Conseguir
um divrcio ser complicado pelo fato de que, para todos os fins, ns nos "reconciliamos" nessas ltimas semanas. No entanto, prometo que voc ficar inteiramente
livre, assim que tudo se resolva.
      "Livre!" Chloe mordeu os lbios e sentiu-se tentada a jogar-se nos braos dele, suplicando para ficar a seu lado e arcar com as conseqncias. Ela, porm,
controlou-se e no sabia se ficava triste ou alegre quando ele se levantou, indicando que a conversa havia chegado ao fim e que a deciso estava tomada!
      Chloe encontrava-se no quarto, pondo nas malas apenas o essencial, quando Marisa entrou. Estava plida, porm triunfante, e foi logo dizendo o que pensava.
      - Quer dizer, ento, que voc vai embora! J era tempo! Talvez Leon a desejasse, mas  a mim que ele ama. Sempre estarei em primeiro lugar. Ele passou a noite
inteira comigo e abandonou os seus braos gelados pelo calor de minha cama. Eu posso lhe dar aquilo que voc jamais poder. Posso compreend-lo. Nas nossas veias
corre o mesmo sangue. Claro que voc fica ofendida, quando me refiro ao nosso relacionamento, no  mesmo? Leon, entretanto, no pensa assim. Basta lhe perguntar!
      Restava apenas uma pequena tarefa a cumprir, e Chloe cuidou de dar conta dela, antes de sair do quarto. Pegou as prolas que Leon lhe havia dado e colocou-as
na gaveta da penteadeira, com os olhos cheios de lgrimas, ao lembrar da alegria que havia sentido.
      Para sua grande surpresa Leon insistiu em lev-la at o aeroporto. Na certa queria comprovar que ela partiria de verdade, pensou Chloe, com uma ponta de cinismo.
      Dirigiram-se para o aeroporto em silncio. Leon estacionou diante da entrada principal e inclinou-se a fim de abrir a porta para Chloe. Ela encolheu-se instintivamente,
perturbada diante da expresso de intensa amargura estampada no olhar dele.
      - Adeus, Chloe - disse ele, tenso, entregando-lhe a mala e a passagem. De repente beijou-a selvagemente e endireitou-se, entrando rapidamente no carro e deixando-a
sozinha no saguo do aeroporto.
      Chloe conseguiu se controlar at o avio decolar. A aeromoa, notando o quanto ela estava perturbada, procurou no se aproximar. Como no havia ningum ocupando
o assento ao lado, Chloe deu livre curso s lgrimas. Seus sonhos jamais se transformariam em realidade e seu corao doa pelo homem a quem havia deixado para trs.


      CAPTULO X

E
ra o fim do outono e o frio j se fazia anunciar. Chloe acabava de sair de uma grande loja, onde havia procurado em vo meias francesas de seda, encomendadas por
sua patroa.
      Preocupada, consultou o relgio. Louise j devia estar inquieta, sem saber o que tinha acontecido com ela, pois sara havia mais de uma hora. Voltou-se e quase
esbarrou numa senhora que usava um carssimo casaco de pele. Ambas comearam a se desculpar ao mesmo tempo e Chloe, atnita, reconheceu a sra. Kriticos.
      - Chloe! Minha cara, que surpresa! Est com pressa? Agora mesmo eu ia a um salo de ch, a fim de descansar os ps e comer uns docinhos. Venha comigo!
      - No posso. Estou trabalhando para uma escritora, no momento, e me atrasei...
      - Trabalhando? Mas com certeza...
      - Gosto muito do que fao!
      Chloe no queria contar  sra. Kriticos que no havia tocado no dinheiro que Leon lhe enviava todo ms, desde que ela voltara da Grcia. A kitchenette, as
roupas e a comida eram pagos com o salrio que recebia de Louise Simmons.
      - Muito bem. J que no pode ir agora, precisa jantar comigo. Estamos hospedados no Savoy e hoje  noite meu marido ter de jantar fora. Voc me faria um grande
favor se viesse me encontrar.
      Ela foi suficientemente discreta para no tecer comentrios sobre a palidez de Chloe e suas olheiras. Sabendo que no tinha nenhum motivo para recusar o segundo
convite, Chloe concordou, embora com relutncia.
      - Muito bem. Ns nos encontraremos s oito. Despediram-se e Chloe demorou muito tempo para encontrar um txi. Sentia-se cansada e irritada e desejou ter uma
razo concreta para recusar o convite da sra. Kriticos. Sentiu-se tentada a telefonar para o hotel, deixando um recado e cancelando o compromisso, mas um orgulho
desmedido no permitiu que ela passasse por covarde aos seus prprios olhos.
      Louise lia algumas crticas a seu ltimo livro quando Chloe entrou no escritrio. Os cabelos grisalhos da escritora, elegantemente penteados, complementavam
as linhas austeras de seu rosto.
      - Oua s isto aqui! "Louise Simmons mais uma vez nos apresenta um produto extremamente bem acabado, to sofisticado e sutil quanto sua autora." Bem acabado!
Como ele ousa me insultar desse jeito! Este livro me custou muito suor e ele sabe disso muito bem.
      - Ele tambm disse que o livro  sofisticado e sutil - comentou Chloe. - H de concordar que, mesmo que ele a tivesse colocado nas alturas, ainda assim voc
estaria se queixando.
      - O problema com voc, Chloe,  que em apenas dois meses acabou por me conhecer muito bem, alis, muito melhor do que eu a conheo. Essa aliana, por exemplo...
Voc sempre a usa e, no entanto jamais a ouvi falar de seu marido...
      - Porque no h marido algum para se comentar...
      - No mesmo? Bem, a vida  sua, Chloe, mas voc sabe como  que eu fico, quando sinto um mistrio no ar.  exatamente o que acontece em relao a voc. Claro
que respeito o seu desejo de no comentar a sua vida particular. Acontece que, de vez em quando, eu a surpreendo olhando atravs da janela e sei que o seu pensamento
est a quilmetros de distncia...
      - Sinto muito. E sinto igualmente comunicar que no consegui encontrar as suas meias.
      - Que pena! Vou jantar com Geoffrey Lewis hoje  noite. Ele  editor e est interessado em comprar os direitos de Mentir ou Morrer para um filme. Esse dinheiro
viria a calhar!
      - Mas em vez de meias francesas, use meias nacionais. Garanto que ele no conseguir distinguir a diferena! Bem, deixe-me terminar o que havia comeado, quando
voc me pediu para sair.
      - No, voc j fez sero duas vezes esta semana e  mais do que suficiente. Alm disso voc est emagrecendo e... Trabalhamos juntas h apenas dois meses,
Chloe, mas quero-lhe muito bem. Se tiver algum problema ou precisar de uma confidente, no tenha dvidas em recorrer a mim.
      Chloe ficou sensibilizada com o oferecimento de Louise, mas o passado havia ficado para trs e a melhor maneira de liquid-lo definitivamente era pr uma pedra
por cima dele e recusar-se a pensar no que havia acontecido.
      Ela demorou-se de propsito, pondo a sua escrivaninha em ordem, pois sentia a maior relutncia em sair. Finalmente chegou  concluso de que no tinha mais
desculpas para permanecer na casa de Louise e, enfiando o casaco, partiu.
      Assim que chegou em casa escolheu um vestido de jrsei de seda, negro, de mangas compridas, que contrastava com seus cabelos muito louros. Contemplando-se
no espelho, Chloe constatou que havia perdido peso.
      Eram oito horas em ponto quando entrou no saguo do hotel Savoy e perguntou pela sra. Kriticos.
      - Que bom que voc veio! - ela disse, exultando, assim que conduziram Chloe  sua mesa. - Sente-se, por favor. - A sra. Kriticos, toda feliz, segurou as mos
de Chloe. - Pelo que noto, voc ainda est usando a sua aliana... Soubemos que havia partido de Atenas. No, Chloe, no diga nada. Convidei-a para jantar porque
queria a sua companhia, no por desejar bisbilhotar a sua vida. Bem, o que vamos pedir? Preciso lhe contar que meu marido e eu estamos esperanosos de que Nikos
fique noivo de uma garota encantadora.  um dos motivos pelo qual estamos em Londres, alm,  claro, da oportunidade de fazer compras. Esta cidade  adorvel, mas
est fazendo tanto frio!
      Conversaram a respeito de Atenas, comparando as lojas de l com as de Londres. A comida foi servida, mas Chloe sentiu que seu apetite desaparecia no momento
em que a sra. Kriticos tocou em um assunto desagradvel.
      - Marisa ainda no casou. Duvido que Leon consiga livrar-se dela. Ela parece estar decidida a arruin-lo. O problema  que aquela garota foi ridiculamente
mimada. Est sem fome, Chloe? - indagou, notando sua palidez. - Devo dizer que voc no est, com boa aparncia e, alm disso, emagreceu. Permita-me fazer uma observao,
mas nem voc, nem Leon, parecem ter lucrado muito com essa separao. Longe disso! A ltima vez que o vi ele estava muito abatido. Tenho certeza de que a culpa 
de Marisa.
      Chloe deixou o prato de lado e mordeu os lbios, a fim de impedir as lgrimas traioeiras que haviam aflorado a seus olhos no momento em que a sra. Kriticos
tocou no nome de Leon.
      - Oh, Chloe... desculpe! - estendendo um lencinho para Chloe. - No foi de propsito. Eu tinha prometido a mim mesma que no tocaria no nome de Leon... Voc
ainda o ama, no  mesmo?
      Chloe bem que gostaria de negar, mas as lgrimas, mais do que as palavras, a traram.
      - Tudo isso  culpa de Marisa! - declarou a sra. Kriticos com muita convico. - Estou segura, assim como tenho plena certeza de que Leon gostaria muito que
voc voltasse...
      - No... no  possvel! No quero falar a respeito disso. Eu...
      Chloe, horrorizada, sentiu um grande enjo e uma fraqueza sbita.
      - No me sinto muito bem - murmurou, mal distinguindo o rosto da sra. Kriticos. - Creio que bebi vinho demais.
      Para seu grande alvio a tontura comeou a passar. A sra. Kriticos queria mandar chamar o mdico do hotel, mas Chloe recusou. Sua amiga, com muito tato, no
tocou mais no nome de Leon. O resto da noite foi muito agradvel, mas Chloe sentia dificuldade em se concentrar, pois seus pensamentos voltavam-se inteiramente para
Leon. Era um grande erro tocar em uma ferida recente, sobretudo uma ferida como a dela que parecia correr o risco de no se fechar nunca.
      No dia seguinte recebeu com grande alvio a notcia de que Louise havia prometido visitar alguns amigos em York e queria a companhia de Chloe.
      - Na verdade vou passar o fim de semana trabalhando. Richard  professor da Universidade de York e prometi-lhe fazer uma palestra sobre a literatura moderna.
Em seguida haver debates e voc poder me ajudar com as suas anotaes.  algo que faz com grande eficincia, talvez devido  sua experincia no campo da publicidade!
      O fim de semana transcorreu muito bem. Os Davidsons eram um casal muito agradvel, que viviam em uma bela casa de campo nos arredores de York, cheia de crianas,
ces e cavalos. Chloe conseguiu descansar, mas o apetite no voltava. No domingo, enquanto ajudava Mary Davidson a preparar o almoo, sua anfitri fez um comentrio
que a deixou atnita.
      -  at injusto deix-la me ajudar, sabendo que voc no sente o menor apetite. Espere durante algum tempo, que as coisas voltaro ao normal. Comigo aconteceu
o mesmo, toda vez que eu estava esperando...
      A essas palavras, Chloe viu tudo escuro  sua frente e mal teve tempo de sentar-se num banquinho.
      - Voc est grvida, no  mesmo? Reconheci os sintomas imediatamente, sobretudo quando Louise comentou que, apesar de ter perdido peso, o seu rosto parecia
mais cheio...
      Grvida! Chloe fez algumas contas mentalmente e fechou os olhos. Como podia ter sido to cega! O enjo, na noite anterior, a fraqueza, a permanente sensao
de cansao, os sintomas que devia ter identificado...
      - No sei, mas creio que voc tem razo.
      - Claro que tenho. Como disse, aps cinco filhos, sou capaz de identificar uma gravidez sem errar. Louise contou que voc est separada de seu marido.
      - Sim, vamos nos divorciar.
      - Ah, sei. E a sua situao poder apenas complicar tudo, no?
      - Possivelmente...
      Grvida! Chloe mal podia acreditar. Assim que voltaram a Londres, a primeira coisa que ela fez foi consultar um mdico. Ao receber a confirmao da gravidez,
comunicou o fato a Louise.
      - Quanto a mim, isso no faz a menor diferena! Voc  a melhor secretria que tive at hoje. Estava at pensando em perguntar se no quer vir morar comigo.
Voc sabe qual  o meu sistema de trabalho. Os meus horrios so os mais imprevisveis. Acho que daria muito certo e nem  preciso dizer que o meu oferecimento inclui
o beb, assim que ele chegar.
      - Espere s at ficar acordada durante uma semana inteira, com choro de criana nos seus ouvidos! Mudar logo de opinio!
      - Estou disposta a correr o risco, Chloe. Eu me conheo suficientemente bem para saber que jamais haverei de casar novamente. Por outro lado, no gosto de
morar sozinha. Voc vai comunicar o fato ao pai?
      A estava uma boa pergunta e ela atormentou Chloe durante vrios dias. Leon tinha todo o direito de saber, mas no poderia jamais voltar para a sua companhia.
Por outro lado, ele moveria cus e terras a fim de obter a tutela do filho, algo que ela no toleraria. Sabia,  claro, que poderia revelar as razes pelas quais
o abandonara, mas recusava-se a adotar uma atitude to mesquinha.
      Foi ento que a carta chegou. Chloe achou melhor sentar-se, enquanto a lia. Leon tomava as primeiras providncias, tendo em vista o divrcio. Ela devia apresentar-se
na sute 10 do hotel Ritz, no dia seguinte, quando um representante de seus advogados discutiria com ela todas as medidas a serem tomadas.
      Mesmo com todo o cansao que sentia, Chloe despertou bem cedo e vestiu-se com capricho, alis um tanto exagerado para a situao. Assim que chegou ao hotel,
anunciou sua presena na portaria.
      - Pois no! A senhora j est sendo esperada. Siga-me, por favor - disse o recepcionista, muito atencioso.
      Chloe foi levada at a sute e bateu na porta. Estava tensa, nervosa, mas mesmo assim forou um sorriso, ao entrar. Para sua grande surpresa, Leon estava 
sua espera e deu um passo adiante, tomando-a pelo brao.
      - Como? O que est fazendo aqui?
      Chloe deu-lhe as costas, decidida a sair, mas ele agiu com rapidez, bloqueando o caminho. Pelo visto, tinha acabado de sair do chuveiro e seu cabelo ainda
estava molhado.
      - Como pde fazer semelhante coisa comigo? - ela perguntou, deixando todo orgulho de lado.
      - No fiz nem a metade do que pretendo - murmurou Leon, tomando-a subitamente nos braos. - Diga que no me quer, que no me ama, e eu sairei deste hotel para
nunca mais v-la.
      - Eu no te amo! - Com que dor dizia aquelas palavras!
      - Mentirosa! No foi exatamente isso que voc disse a Cristina Kriticos... S existe uma maneira de descobrir. Afinal de contas, os beijos no mentem, no
 mesmo? J devia ter percebido isso muito antes...
      Chloe tentou resistir e lutar contra o desejo que ia se apoderando lentamente de seu corpo. Ela, no entanto, se traiu, e seus lbios se entreabriram como ptalas
de uma flor diante do sol benfazejo. Abraou-o e s percebeu que estava chorando quando ele enxugou suas lgrimas com o dorso da mo.
      - Agora diga que no me ama...
      - No consigo... Oh, Leon, por que est fazendo isto comigo? Orgulho? Punio? Se tivesse algum sentimento por mim, me deixaria sair.
      - Voc acha? Pois  exatamente por ter "sentimentos" por voc que no posso deix-la ir embora. Por que acha que vim da Grcia ao seu encontro? Eu te amo,
Chloe, voc povoa os meus dias e as minhas noites, me atormenta com a sua indiferena, quando est a meu lado, e continua a me atormentar, quando est ausente.
      - Voc me ama? Leon! E Marisa?
      - No fale nisso. Sente-se, Chloe. Preciso lhe contar algo... Marisa morreu ontem  noite.
      Era a ltima coisa que Chloe imaginava ouvir e, movida pela generosidade, abriu os braos, acolhendo-o.
      - Obrigado... Jamais duvidei dos seus bons sentimentos, Chloe. Lembra-se de que lhe contei que a me de Marisa morreu quando ela era criana? Bem, no lhe
revelei que ela se suicidou. Sempre foi uma criatura muito instvel, mas aps o nascimento de Marisa a situao parece que piorou. Quando meu pai teve conscincia
de que estava para morrer, me fez jurar que eu cuidaria de Marisa. Temia que ela tivesse herdado a instabilidade psquica da me. Cheguei a pensar que isso no se
repetiria. Claro que ela vivia fazendo cenas, mas eu atribua esse fato s dificuldades da adolescncia. Mesmo aps o nosso casamento, mesmo depois de voc me contar
que ela havia destrudo nosso filho, eu me recusei a encarar a verdade. Talvez no fosse suficientemente forte para isso. Sabia que Marisa sentia cimes de voc
e achei que voc talvez sentisse cimes dela. Apaixonei-me por voc assim que a vi, mas voc era to jovem... achei que a intensidade das minhas emoes poderia
assust-la e esperei que o seu amor por mim desabrochasse lentamente.
      Quando voc me abandonou, eu me amaldioei por t-la deixado partir. Queria vir atrs de voc, mas o orgulho me impediu. Quando Marisa me disse que voc havia
casado comigo unicamente pelo meu dinheiro, quase enlouqueci. Ela nos enganou com muita facilidade, porque nenhum dos dois deixava o outro enxergar o que ia nos
nossos coraes.
      Marisa ficou estranhamente agitada, aps a primeira vez que voc me abandonou, mas aos poucos foi se acalmando. At cheguei a achar que poderia correr o risco
de procurar um noivo para ela, algum como Nikos, bom e afetuoso. No imaginava que era a ltima coisa que ela haveria de querer. Mostrou-se to histrica e agitada
em Eos que fiquei seriamente preocupado com ela. Aos poucos admitia que Marisa no era to estvel quanto eu imaginava, mas jamais me passou pela cabea que ela
pudesse dizer que ramos amantes. Assim que soube do seu desaparecimento, temi que ela tivesse feito uma loucura. Sabia que Marisa agia assim para chamar a ateno,
mas no percebia o porqu de sua atitude. Ento voc mudou de idia e disse que me deixaria. Achei que no poderia interferir na sua deciso. Encontrei-me com Cristina
Kriticos e ela me contou que havia estado com voc em Londres e que voc lhe tinha contado que ainda me amava. Mal pude acreditar. Comuniquei a Marisa a deciso
de vir a Londres busc-la. Ela teve um ataque de nervos e disse que se mataria. Precisei chamar o dr. Livanos, e ambos concordamos em intern-la no hospital. Ela
fugiu mais uma vez e foi atropelada e gravemente ferida. Os mdicos disseram que no havia esperana e, quando cheguei, ela estava quase inconsciente. Contou-me
toda a verdade: que havia enganado voc, dizendo existir uma relao incestuosa entre ns, que eu a tinha seduzido... No  verdade, Chloe. Eu a amava, mas apenas
como irm! Contou-me da sua queda, dos cimes que havia sentido ao saber que voc estava grvida de mim. Eu mal podia acreditar no que ouvia. Declarou que tinha
agido assim devido ao amor que sentia por mim. Amor! Era apenas uma doena, uma obsesso.
      - Ela me disse que voc me queria de volta apenas por desejar um filho... O tempo todo eu desejava perguntar se voc iria desistir dela, mas no tive coragem!
      -  claro que eu queria um filho, mas, acima de tudo, queria voc. O filho no passava de uma desculpa. Se voc ficasse grvida, eu poderia mant-la mais facilmente
a meu lado... Jamais poder saber o quanto me custou lev-la at o aeroporto... deix-la partir sem pedir para que ficasse. Voc acredita em mim, no  mesmo, Chloe?
      - Acredito, sim. Mas no acho que Marisa tirou a prpria vida. Acredite nisso, Leon.
      - Tem razo, mas at agora no consigo reconciliar a imagem da irm que eu achava que tinha com a da mulher que ela era na verdade. Uma mulher que no recuava
diante de nada, obcecada ao ponto do fanatismo...
      - Na realidade, existiam nela duas mulheres absolutamente distintas. Lembre-se dela apenas como a irm a quem voc amava, Leon.
      - Voc voltar para a Grcia e viver comigo?
      - Sem dvida. Senti tanta, mas tanta falta de voc!
      - No tanto quanto eu. - Leon tomou-a nos braos e levou-a para o quarto. - Eu te desejo, Chloe.
      - Eu tambm, Leon...
      Chloe sabia que, aps aquela penosa confisso, Leon precisava dela mais do que nunca. Haveria poucas ocasies em suas vidas que ele teria necessidade de que
ela fosse a parte mais forte dos dois e aquela era uma delas. Abandonou-se inteiramente a ele. Mais tarde teria tempo de contar sobre a criana que carregava em
seu ventre. Agora Leon precisava de sua dedicao total. Prometeu a si mesma que jamais permitiria que a lembrana de Marisa se interpusesse entre eles.
      - Quero que voc me ame, Chloe! - murmurou Leon, entrelaando suas pernas com as dela. - Deixe-me am-la, sem que existam barreiras entre ns...
      Chloe simplesmente entregou-se a ele e o calor de seus lbios tornava desnecessrio qualquer outro tipo de comunicao. Ambos haviam conhecido a dor e a infelicidade;
agora tinha chegado o momento de conhecerem o amor.


      FIM
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 Sabrina n 272


 Sabrina n 272


 Projeto Revisoras

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